• Reconfigurações Jornalísticas

Aos Fatos: as sutilezas do combate à desinformação

Atualizado: Mar 23

Daniel Magalhães e Luisa Bertola

Dezembro de 2020


Nesta entrevista, a jornalista Tai Nalon conta quais foram suas motivações para criar, em 2015, junto com Rômulo Collopy, o portal de checagem Aos Fatos e como o trabalho vem se desenvolvendo desde então. O veículo completou meia década, este ano, em crescimento e com a estreia do projeto Radar, que atualmente ocupa boa parte de sua equipe de 18 profissionais. O lançamento estava previsto para as eleições municipais, no segundo semestre, mas foi antecipado devido à grande quantidade de pedidos de checagem sobre o novo coronavírus que o site começou a receber em março, no início da pandemia no Brasil. Naquele mês, no número do Aos Fatos no WhatsApp, a demanda por checagens aumentou sete vezes, tornando impossível a leitura de todas as mensagens num único dia. Assim, a agência pôs para funcionar o Radar, com uma série de protocolos específicos para diferentes redes sociais, a partir dos quais a tecnologia consegue detectar índices da “informação de baixa qualidade”, conceito criado para lidar com a poluição informacional nas redes.


Afinal, como diz Tai Nailon nesta entrevista concedida em 22 de outubro de 2020 (pelo aplicativo Zoom), um dos desafios do combate à desinformação é que “nem tudo é verificável”. Por isso, o conceito de “informação de baixa qualidade” busca se aproximar dos espaços onde possivelmente circula a desinformação. O uso de expressões como “vírus chinês”, “vachina” ou “fraudemia”, quando detectadas pelos sistemas tecnológicos de monitoramento criados pelo Aos Fatos, são alguns dos indícios de se trata de peças desinformativas. O projeto resulta do amadurecimento do trabalho da agência nos últimos anos, marcados por momentos-chave, como o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 14 de março de 2018, e as eleições presidenciais daquele ano.


Três dias depois da morte de Marielle, um sábado de manhã, Tai lembra que recebeu um telefonema bem cedo do jornalista Fernando Rodrigues, do veículo Poder 360 (outro nativo digital jornalístico), perguntando se o portal estava checando informações sobre a vereadora que circulavam nas redes. Ele gostaria de publicá-las. Foi assim que Tai e sua chefe de reportagem, Ana Rita Cunha, começaram a trabalhar e tiveram de lidar com uma intricada rede de informações falsas sobre Marielle, entre as quais uma foto em que, segundo os comentários, era ela quem aparecia, muito jovem, no colo do traficante Marcinho VP. A checagem publicada pelo Aos Fatos, negando essas informações, “viralizou” nas redes e, no fim da manhã, as curvas ascendentes de mensagens falsas começaram a ser revertidas nas mídias sociais. O site do Aos Fatos chegou a ter mais de um milhão de acessos somente naquele fim de semana e saiu do ar. “Então, a primeira lição foi: tenha um site que suporte grandes picos de audiência”, conta Tai. O caso se tornou um case, pois é muito raro, afirma a jornalista, uma checagem conseguir parar uma campanha de desinformação política no momento em que esta acontece. Assim, outra lição foi que é muito importante conseguir realizar checagens na hora em que as informações falsas “estão saindo do controle, ou seja, tomando proporções muito grandes nas redes sociais”.


“Mas é lógico - destaca Tai ainda sobre o trabalho no caso Marielle - que isso não foi consequência da checagem só, entendeu? Isso foi consequência de algo que é necessário fazer para que seja possível a verdade factual prevalecer contra as mentiras que a gente vê na internet, que é uma mobilização geral da sociedade de compartilhar ativamente checagem de fatos e contraditar pessoas que estejam compartilhando determinado conteúdo”. Esse tipo de engajamento é necessário, pois a mesma desinformação costuma circular por diferentes ambientes. “As pessoas não caem em fake news, elas estão rodeadas de desinformação o tempo inteiro porque a desinformação é uma maneira de as pessoas, como posso dizer, compartilharem valores juntas, é um compartilhamento de afinidades, e o que as redes sociais fazem é justamente aproximar pessoas que têm afinidades, então elas acabam compartilhando também desinformações por terem graus de afinidade”.


O projeto Radar também está atento a essa viagem da desinformação pelas redes. “As narrativas [de desinformação] são muito parecidas, só mudam o formato, a mídia, mas o problema é endêmico em todas as plataformas, não adianta combater a desinformação no WhatsApp porque ela vai estar em outra plataforma também”, diz Tai. Algo que ficou muito evidente para ela com o projeto Radar foi ver que há grande quantidade de desinformação no Youtube sem checagem. “É um negócio assustador e existe muito pouco conteúdo jornalístico verificado, bem feito no Youtube para contraditar”.


Assim como muitos pesquisadores na área, a jornalista tem restrições ao termo “fake news” porque “notícia falsa” é somente um dos aspectos da desinformação - além de ter sido uma expressão politicamente disputada, como fez Donald Trump nos EUA, derrotado agora para a reeleição presidencial, que a usava para atacar o que não era de seu agrado. Além disso, memes, imagens, vídeos etc não necessariamente são notícias falsas, mas desinformação. Na entrevista ao Reconfigurações Jornalísticas, ainda, a jornalista analisa as limitações do método de checagem que utiliza selos para qualificar as informações - como “verdadeiro”, “falso, “exagerado” etc. Essa metodologia foi predominante nos primeiros anos do trabalho das agências de checagem.


Atualmente, Tai conta que a principal fonte de renda da agência vem de serviços de consultoria que prestam para empresas que precisam entender o fenômeno da desinformação, e como esta afeta suas plataformas. “Agora, se elas tão preocupadas com isso por motivos legítimos ou ilegítimos, isso é discutível”, afirma. Em todo caso, mesmo que não seja por motivos políticos, a desinformação parece não dar trégua: “Tem plataforma que não pode se dar ao luxo de ter só conteúdo desinformativo (...)… Imagina o Google ser um grande buscador de conteúdo fraudulento? Não serve pra nada, entendeu?”.