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  • Foto do escritorReconfigurações Jornalísticas

InfoAmazonia: o geojornalismo em prática no Centro do Mundo

Por Fernanda Ornellas e Roberta Ruchiga 

Outubro de 2020


O site de jornalismo InfoAmazonia oferece uma experiência de escalas variadas de aproximação do território amazônico. Criado em 2012, o veículo utiliza uma ampla gama de tecnologias de geolocalização para a confecção de suas reportagens. Em sua primeira década de existência, passou por diferentes fases, resultado de seu aprendizado diário na relação com leitores, financiadores e parceiros. O uso agregado de dados, como por meio de coletas em satélites da Nasa ou do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), permite, por um lado, a formação de perspectivas amplas sobre os vastos horizontes amazônicos. Por outro lado, o site investiga a singularidade de seus ocupantes, realizando reportagens a partir de viagens às localidades.

 

Nesta entrevista concedida no auge da pandemia pelo aplicativo zoom, no segundo semestre de 2020, para o projeto Reconfigurações Jornalísticas, da Universidade Federal Fluminense (UFF), o jornalista Gustavo Faleiros, um dos fundadores do InfoAmazonia, conta como sua história desembocou na criação do site, assim como foram pensados os primeiros projetos e sua repercussão. O veículo começou a ser gestado a partir da experiência de Faleiros no site jornalístico ((o))eco, criado em 2004 para cobrir pautas ambientais e que teve entre seus fundadores o jornalista Marcos Sá Corrêa, com trajetória influente na grande imprensa. Pensado inicialmente como uma plataforma de dados para ((o))eco, o InfoAmazonia foi aos poucos conhecendo suas potencialidades para a cobertura do território amazônico. 


O trabalho se baseia no conceito do geojornalismo, que tem como um de seus princípios realizar reportagens a partir de dados gerados pelas ciências da terra, como sobre a temperatura dos oceanos ou a quantidade de monóxido de carbono na atmosfera. Faleiros é um dos elaboradores de um manual sobre geojornalismo, que pode ser acessado aqui. O jornalista acredita que esse tipo de cobertura vai se tornar cada vez mais relevante devido ao aprofundamento da crise climática.


O InfoAmazonia atua como uma rede de jornalistas que cobre questões ambientais nos nove países da Amazônia (como eles mesmos afirmam, por exemplo, no expediente do projeto Mercúcio, uma chaga na floresta). O site integra uma geração de sites sem fins lucrativos de jornalismo que conta com financiamentos do terceiro setor, sobretudo internacionais, e que vem se firmando nos últimos anos no Brasil. No site podemos ler quem são os diferentes apoiadores no expediente de cada projeto. A rede da qual participa, a Earth Journalism Network, foi criada pela Internews em 2004 para incentivar países de renda média e baixa a cobrir o meio ambiente de maneira mais efetiva.


Além disso, parceria com outros veículos jornalísticos, para produção e distribuição, é central para a atuação do InfoAmazonia. Faleiros conta como vê reflexos do trabalho dessa geração na grande imprensa e se mostra otimista a respeito do futuro do jornalismo. Em sua opinião, estamos vivendo "um momento muito bom para ser jornalista", de grande criatividade, em que "estão caindo vários paradigmas" que definiam a prática há até pouco tempo. O jornalista, que é de São Paulo e mantém a base do site na metrópole do Sudeste, diz se sentir na periferia, invertendo escalas de valores territoriais:


"Por muitos anos, eu tinha vergonha de falar, pô, mas eu sou aqui de São Paulo e só falo sobre a Amazônia e tal. Hoje em dia eu acho que, na verdade, é uma grande vantagem. A gente, assim, considera a Amazônia o centro do mundo e sou a periferia, eu estou olhando para o centro do mundo e escrevendo sobre o que eu acho que é a coisa mais importante do mundo hoje".





Transcrição da entrevista com Gustavo Faleiros, do InfoAmazonia


Coordenação  do projeto:  Profa. Rachel Bertol e Profa. Barbara Emanuel

Universidade Federal Fluminense (UFF) - Departamento de Comunicação


Roteiro - Rachel Bertol, Fernanda Ornellas e Roberta Ruchiga   

Entrevista - Fernanda Ornellas e Roberta Ruchiga

Transcrição -  Rachel Bertol e Mateus Stogmüller (bolsista) 

Edição final e revisão - Rachel Bertol e Mateus Stogmüller 


Clique aqui para acessar o PDF da entrevista. 


[0:10] A gente queria saber um pouco de você. A gente deu uma pesquisada, a gente viu que você trabalhou na piauí já, começou no Valor Econômico, mas de onde você é, onde você se formou, por que você escolheu jornalismo e o que você guarda desses anos de formação? 


[0:26] Gustavo Faleiros: Bem, eu sou de São Paulo, capital, sou de uma família de jornalistas, na verdade. Minha mãe é jornalista, meu pai é jornalista. Então, eu tenho um pouco dessa história, que, por mais que eu tenha negado por um tempo que nada disso tivesse me influenciado, acabou me influenciando um pouquinho. Mas eu me formei aqui em São Paulo também, estudei na PUC de São Paulo e comecei trabalhando em coisas variadas. Antes de eu começar a trabalhar no Valor, que foi o meu primeiro emprego depois que eu tinha saído da faculdade, eu trabalhei de estagiário em televisão, fazendo um pouco de tudo, cobertura de cidade e essas coisas. Mas eu achava que eu ia caminhar - o que eu mais queria era fazer era jornalismo cultural, na verdade, porque eu gosto muito de música. Eu fiquei muito em dúvida uma época se eu queria mesmo ficar no jornalismo, porque eu estudava música e achava que tinha que fazer música, o caramba. E aí o meu primeiro emprego mais assim antes do Valor, eu acabo nem colocando muito no currículo porque ele é tão destoante, mas eu tenho muito orgulho dele, que eu fui repórter de uma revista de percussão e bateria. Então, eu entrevistei vários dos meus ídolos, ia em shows de graça e eu achava o maior barato, mas eles me pagavam muito mal, então chegou uma época que não dava mais para eu ficar segurando essa história. E foi aí que eu comecei a procurar outras coisas e até por alguns conhecidos eu acabei pegando essa vaga no Valor, foi muita sorte. Eu aprendi muito lá no Valor, não era uma coisa que eu pensava fazer. Economia de jeito nenhum. Eu entrei muito temeroso se eu iria ficar muito de saco cheio, mas eu adorei. E principalmente lá que eu descobri esse amor pela cobertura de meio ambiente, porque não havia muita gente que cobria isso lá e como tem uma conexão tão direta, meio ambiente e economia, foi por aí que eu me conectei nesse tema. E gostei tanto que vi que era isso que eu queria fazer e fui estudar, fui fazer Mestrado em Política Ambiental e fiquei totalmente envolvido por essa coisa. Mas voltando um pouco atrás na sua pergunta, você falou por que eu decidi ser jornalista, eu sempre tive essa coisa, que eu acho que todo jornalista tem, gosta de escrever, gosta de se expressar… Então pra mim isso sempre ficou muito misturado, essa coisa de escrever, né, no colégio eu também gostava de ser representante da classe, de fazer teatro, essas coisas que o pessoal de humanas gosta de fazer. E aí, num trabalho de escola, a gente tinha que fazer um trabalho de orientação vocacional, entrevistar outras pessoas, outros profissionais, saindo e entrevistando pessoas, advogados… para ver como eram essas coisas. E foi nesse trabalho, de fazer entrevistas para esse trabalho, que eu falei: nossa, eu gosto muito de entrevistar, gostei muito de entrevistar as pessoas. Na verdade eu gostei muito de entrevistar um funileiro mecânico. Eu fui numa oficina, e eu fui cheio de preconceito, achando que o cara ia falar “Pô é uma droga trabalhar aqui de mecânico, ficar sujo de óleo o dia inteiro”, aquela coisa meio de playboy. Eu fui assim com aquela visão. E quando o cara falou, não, “é a coisa que eu mais adoro, arrumar carro, adoro arrumar carro, isso aqui é a profissão da minha vida”. E eu fiquei fascinado por ouvir um cara falar daquilo, né, é o que o pessoal chama de empatia no jornalismo. Logo eu me identifiquei com o cara, assim, e eu falei: “Eu gosto de fazer isso, eu quero ficar ouvindo as pessoas falaram e tal”. Hoje em dia eu vejo que também fiz uma escolha fácil, assim, para ter uma certa aceitação familiar, mas faz parte, eu acho.


[4:17] Foi tão bom para você ficar no Valor Econômico, você falou que não queria seguir economia. Como foi esse tempo de experiência lá?


[4:25] Gustavo Faleiros: Foi muito bom. O Valor é um jornal muito, como vou poder definir? Ele tem muito espaço para pensar, então isso era muito legal. Como é um jornal de economia, eu descobri uma coisa, a economia é sempre uma coisa depois. Por exemplo, eu estava lá quando caíram as Torres Gêmeas, por exemplo. Eu não estava na função de reportar: “Hoje dois aviões bateram nas duas torres e morreram muitas pessoas”. Não era esse o trabalho, embora eu ache super excitante esse trabalho. Mas o meu trabalho era o “E agora? Depois que as torres gêmeas caíram, o que acontece? Vai ter crise econômica?”. Então é sempre o impacto sobre a economia. Então, eu gostei muito dessa coisa meio “vamos pensar e analisar”. Aprendi isso lá. Aprendi lá também, uma outra coisa que é muito presente para minha carreira, que é trabalhar com dados. Eu comecei a gostar muito de trabalhar com dados lá e criar gráficos. O trabalho do repórter era fazer a reportagem e orientar o pessoal da arte, como eles chamavam, a fazerem os gráficos. "Eu quero um mapa aqui, um mapa assim". E isso eu gostei muito e também foi a experiência essencial para eu entrar na questão do meio ambiente. Foi uma coisa ao acaso mesmo, eu não tinha planejado, mas como não tinha ninguém cobrindo essa área e eles falavam “ah vai lá cobrir isso” e eu vi e falei “é isso que eu gosto, eu gosto de cobrir matéria de meio ambiente.” Então foi muito bom trabalhar lá.


[6:01] Depois do Valor Econômico, você fez mestrado na Inglaterra, com tema já voltado para o meio ambiente, e depois você começou a fazer parte da redação de ((o))eco. Você pode falar um pouco essa base num jornal mais tradicional, voltado para economia, contribuiu para sua visão sobre jornalismo, ainda mais que você mudou de área.


[6:30] Gustavo Faleiros: Eu acho que O Valor contribuiu muito por ser um jornal de grande visibilidade, a circulação não é muito grande, mas ele tem muita influência, muita relevância. Você sente logo a responsabilidade que você tem na mão. Então você pode descobrir essa responsabilidade observando, uma vez que você é um moleque ali, um pessoa muito jovem vai sentar, às vezes, na frente do presidente da Fiesp para fazer perguntas. Naquela  época, tinha crise de energia, várias vezes a gente tinha que entrevistar os ministros da energia naquela época. Meio que por acidente também num congresso me botaram na frente da Dilma [Rousseff], assim, era eu e a Dilma e ela era ministra da Economia [nota da edição: Dilma Rousseff foi ministra de Minas e Energia no primeiro governo Lula], então eu tinha que fazer. Então essa responsabilidade logo cai na sua mão e você também descobre pelos erros. Quando você erra, botou uma informação errada ali, logo o mundo cai em cima de você e você aprende que você tem que fazer as coisas bem certinhas para que isso não volte a acontecer. Então, é aquela coisa que a gente sempre fala: verificar a informação, não enxergar as coisas preto no branco, realmente ouvir vários lados de uma mesma questão... É um pouco clichê, mas você aprende ali na marra. Você ouve na faculdade, mas quando isso tem que funcionar na prática, senão seu trabalho vai ser desprezado, não vai funcionar, você aprende mesmo, que é um valor que é perene no jornalismo, que é inerente ao jornalismo. O que o seu trabalho vale muito mais, o jornalismo tem muito mais impacto se você usa essas ferramentas de verificação da informação, de ouvir vários lados, de absorver a complexidade das coisas. Uma das coisas mais legais do jornalismo é descobrir que o mundo não é preto e branco. E o que eu trago para o meu trabalho com o meio ambiente é isso. Se tem uma área em que as pessoas tendem a ver o bom e o mal de uma maneira muito estanque é o meio ambiente. Ah, tem o desmatador, ah tem o destruidor da floresta e tem o defensor, tem o herói. Às vezes é o indígena, às vezes, os povos da floresta. Muitas vezes a gente usa essas coisas como artifícios narrativos, mas a realidade é que, a realidade não é essa. Cada caso é um caso, as coisas são complexas, tem um monte de pequenas nuances, né, nos casos. E isso eu posso dizer que surgiu muito no meu trabalho no Valor. Eu aprendi muito ouvindo pessoas do agro, por exemplo. Ah, hoje, se eu falo que eu sou ambientalista, eu não posso falar que eu conheci - não é que eu não posso, você me entende, né, assim - soa polêmico eu falar que ˜ah tem uma pessoa muito ilustrada, muito inteligente, muito sensata, que é um plantador de soja". Não, mas plantador de soja queima a Amazônia, sei lá. Pode surgir um discurso polarizado dessa natureza. Foi ótimo quando eu estava no Valor uma vez que eu fui conhecer toda parte de Barreiras na Bahia, onde é um grande polo graneleiro, eu me lembro de uma entrevista em que eu conversei com o presidente da Associação dos Produtores de Algodão, pô, foi super ilustrativo, eu aprendi um monte conversando com essas pessoas. 


[9:51] No ((o))eco você trabalhou com o Marcos Sá Corrêa, um dos fundadores, e a gente queria que você pudesse falar um pouquinho sobre como a experiência e a credibilidade dele na grande imprensa inspiraram o trabalho no site e o que você aprendeu com eles. 


[10:07] Gustavo Faleiros: Fantástico, incrível, eu nem sei falar o tanto de coisa que eu aprendi com ele (Marcos Sá Corrêa). O texto dele era… eu me lembro que, quando eu cresci, o Marcos era editor ou colunista da Veja. E, como eu disse, sendo uma casa de jornalistas, tinha essas coisas, eu meio que eu queria imitar, eu ficava tentando ler o jornal, a Veja, quando eu era pequeno. E eu lembro que eu tentava ler a coluna do Marcos Sá Corrêa e não entendia nada. O que é esse - com todo respeito, né, ele parece japonês, mas ele não é japonês - o que é esse japonês escrevendo aqui? E depois que eu conheci, comecei a conhecer os textos dele, eu vi que era uma coisa tão elaborada, até barroca, que era só para um adulto para entender, uma criança não ia entender. Foi incrível conhecer o texto dele em profundidade. O Marcos era muito criativo e a experiência dele na grande imprensa, né, ele falava uma coisa que era muito importante: “((o))eco, não é que ele não vai cobrir os grandes temas, ele vai cobrir de uma forma diferente". Porque às vezes o pessoal entendia, ah, não dá para competir com a grande imprensa, então a gente vai falar de coisas nada a ver, meio que fora. Acontecia muito esse erro, às vezes acontece ainda. Para não competir com a grande imprensa, fazia um assunto totalmente diferente. Olha, não é isso, você tem que surfar na mesma onda, mas você tem que surfar de uma maneira diferente. Isso até hoje a gente tem um pouco no InfoAmazonia. Ah, o assunto é queimada, a gente vai ter que surfar, é nossa chance de surfar no assunto. Vamos, mas o nosso ângulo tem que ser tem que ser melhor, tem que ser diferente. Alguma coisa tem que ser. Mas principalmente o que eu aprendi com o Marcos foi uma coisa acidental, não foi uma coisa da grande imprensa que ele trouxe. Porque o Marcos, ele sacou, muito antes de vários dos meios que foram criados depois que o modelo, um bom modelo para o jornalismo, principalmente o jornalismo ambiental, era ter associações sem fins lucrativos. Foi uma coisa mais administrativa que eu aprendi com o Marcos. Porque ele sacou assim: manter redações já não ia ser possível, por conta de questões, digamos, de anunciantes. Então, cada jornalista tem que ser um gestor de projeto. Ele começou a incentivar a cada um de nós a ter um projeto e foi nessa que eu criei o InfoAmazonia. Ah, não, eu gosto de dados, eu gosto da Amazônia, eu quero ter um projeto sobre jornalismo de dados na Amazônia. E ele incentivou a gente a ter  projetos sobre questões urbanas, sobre ecoturismo. Foi difícil essa transição, mas ele falava: ˜Eu não vou ficar trabalhando para poder sustentar repórter marmanjo. Se for pra ficar escrevendo e fazendo coisa, eu vou fazer", ele falava. "Então, eu quero que vocês tomem a iniciativa de usar ((o))eco como trampolim para o seus projetos, criem os seus projetos”. Isso foi muito bom, para mim, especialmente. Eu descobri duas coisas, eu descobri que eu gostava mais de fazer jornalismo digital, que eu gostava de fazer jornalismo misturado com multimídia, botar vídeo, botar várias coisas e mapas interativos. Descobri isso e descobri que eu gostava de ser meio que o gestor da parada toda. Ser o doninho da loja, então eu falei: ah, vou abrir a minha própria lojinha em algum momento. Foi isso que eu descobri lá, principalmente.


[13:46] Do ((o))eco para o InfoAmazonia, você parece ter feito uma trajetória de maior especialização ainda. Em vez de falar do meio ambiente de forma geral, o trabalho passou a ter um foco mais regional. Como foi esse processo?


[14:02] Gustavo Faleiros: Inicialmente, o InfoAmazonia foi pensado para ser uma plataforma de dados do ((o))eco. Eu não havia pensado que ele ia ser um projeto separado do ((o))eco, nem nada. Ele ia ser um visualizador de informação. Quando ele surgiu, ele ia ter mapas, ia ter camadas, ia ser uma forma de explorar o tema amazônico de uma forma interativa. Na verdade, eram duas coisas que estavam por trás: era isso, o jornalismo de dados, ser uma plataforma de jornalismo de dados, e ser um projeto transnacional. Dentro do ((o))eco, em 2009, a gente teve um projeto que chamava “O Eco Amazônia”, cujo objetivo era ser transnacional, que era ter uma rede de jornalistas em toda a Amazônia, na Pan-Amazônia: Peru, Equador… Eu meio que já coordenei isso ali, de contratar essa galera, criar a rede, ter uma edição  trilingue, em inglês, espanhol. Então, ele era um protótipo já do InfoAmazonia. Então foi isso, a gente criou o InfoAmazonia como uma plataforma, mas aí aconteceu um monte de coisa, foi tomando um rumo muito próprio o InfoAmazonia. Inicialmente, ele tomou o rumo de ser mesmo um produtor de tecnologia e eu achei que ia ser a principal coisa, um software para visualizar imagem de satélite, um software para publicar matérias geolocalizadas ou plataformas para monitorar o desmatamento. O começo do InfoAmazonia foi totalmente voltado para a tecnologia, tanto que não tinha jornalista. Tinha eu, como uma espécie de editor e todo o resto eram desenvolvedores. Mas, a partir de 2014, 2015, quando a gente estava ainda lá no ((o))eco, as coisas começaram a ficar muito separadas. É uma longa história, acho que nem vale a pena eu entrar em detalhes, mas foi mesmo uma espécie de racha, até escalou uma época entre eu e o que era o editor do ((o))eco, ele começou a achar que estava muito separado da estrutura do ((o))eco e de fato estava. Aí eu resolvi sair, fizemos um acordo lá e teve uma transição e finalmente a gente saiu. Mas foi um processo, pensando assim, hoje em dia, demorou bastante tempo para acontecer a transição, porque a partir do momento que a gente saiu do ((o))eco, a gente começou a trabalhar com projetos muito menores. O ((o))eco já era uma ONG muito consolidada, conseguiam fazer captação - a principal fonte de captação são doações internacionais. Então, no ((o))eco a gente conseguia fazer captações que sustentavam o InfoAmazonia o ano inteiro, por exemplo. E aí passou a ser um projeto muito mais focado em pequenas histórias. Agora, a gente consegue recurso para fazer essa história, depois essa história, depois essa história. E essa transição na verdade ela só terminou este ano. Porque este ano a gente criou a Associação InfoAmazonia, uma longa história mesmo. Mas o resumo é que, para você criar uma ONG, também, não é uma coisa muito simples. Quem são as pessoas que vão ficar trabalhando com você, como é que você vai ter recursos para ter uma estrutura. Então demorou uns bons quatro anos até eu meio que me encontrar, quem são as pessoas que vão trabalhar comigo. Eu achei que eram algumas pessoas que acabaram não dando certo. Daí tive que refazer a história toda e agora, sim, está num momento momento, meio quase que um renascimento mesmo. Tem a Associação InfoAmazonia, tem os diretores, agora estamos formando já uns conselhos, conselho fiscal, conselho consultivo. Eu estou muito mais agora na parte de, digamos, da gestão da governança dessa instituição. Estou mais preocupado até com a Instituição InfoAmazonia do que com o site InfoAmazonia. Obviamente, eu sei que eles são os nossos produtos, mas tem pessoas que eu confio muito que estão mais dedicadas a isso. 


[18:11] O que você planejava com o começo do InfoAmazonia, como foi o comecinho mesmo? 


[18:18] Gustavo Faleiros: Quando eu comecei a pensar o InfoAmazonia, foi nessa época do projeto com ((o))eco, em 2009. Na verdade, nem existia a expressão “jornalismo de dados”. Eu estava interessado em trabalhar com mapas, essa era a minha principal piração. Eu queria meio que criar um, a gente falava de geoblog, geonotícias, uma rede de jornalistas no mapa. Era a época que estava saindo muita coisa feita no Google Earth também, então era focado nessa coisa do mapa. E, aí, foi em 2010 que começou a surgir a expressão “jornalismo de dados”. E quando surgiu essa expressão, a gente viu que tinha uma possibilidade muito boa de surfar nessa onda, mesmo, porque a gente se enquadrava nisso. Então, quando chegou o momento, a gente falou: é um projeto de jornalismo de dados para a Amazônia. 


[19:20] No site, tem três projetos especiais relacionados à Covid. Um deles é o Amazônia Sufocada, que envolve um esforço de reportagem bastante grande, e a gente pode ver que tem uma combinação de diferentes metodologias de trabalho, com o objetivo de falar de duas questões que ganharam muito relevo este ano: as queimadas e o coronavírus. Primeiramente, em termos jornalísticos, como vocês chegaram a essa solução para juntar essas duas questões e por quê?


[19:57] Gustavo Faleiros: Já faz muito tempo que a gente queria explorar a questão de queimadas pelo ângulo da poluição e do dano à saúde, que eu acho que é um assunto que no ano passado começou a ganhar relevo com aquela história da fumaça ter chegado no Sudeste, em São Paulo, aquele escurão, aquela coisa toda. Então, essa oportunidade de falar sobre isso começou a se consolidar no ano passado. Este ano, com a história da Covid, a dúvida era mesmo: será que se repetir um evento como o do ano passado de queimadas e de poluição com as queimadas, as pessoas vão sofrer um impacto na saúde maior? Primeiro, essa pergunta não vai ser respondida este ano, ela vai ser respondida no ano que vem, nos próximos anos, porque vai precisar de muita pesquisa sobre os dados hospitalares e os dados hospitalares sobre doenças respiratórias, como vocês sabem, está totalmente bagunçado este ano, não dá para distinguir o que é Covid, o que é outras doenças e tal. Então, é um projeto que no momento ele não tem esse rigor científico. Não dá pra gente falar, olha, no Acre, onde teve várias queimadas e poluição do ar, as pessoas foram mais para o hospital por conta disso ou as pessoas que estavam com Covid foram ainda mais afetadas. Porém, nessa relação causal, essa coisa causuística, você faz correlações. Então a gente escolheu um… que é um método que a gente usa muito em várias coisas que a gente faz no InfoAmazonia, que são as correlações espaciais mesmo. Você olha para um município e aí você vê qual que é a taxa de desmatamento lá, quantas queimadas teve lá, quanto teve de Covid teve lá. Você vai criando indicadores para o que você olha. Você não pode afirmar que uma coisa causou a outra, porque não tem a confirmação científica, mas é bastante significativo você mostrar que vários dos municípios onde teve mais queimada e mais desmatamento, teve mais casos de Covid. Pode ser que a causa seja porque as autoridades públicas são mais relapsas em geral, elas deixam rolar, pode ser uma das causas. Pode ser que, realmente, teve um impacto direto na saúde pelas queimadas. Isso a gente vai descobrir nos próximos anos. Mas a relação principal, aí, é a questão de poluição do ar e saúde respiratória e eu acho que esse é um assunto que vai crescer muito ainda nos próximos anos. De poluição urbana, poluição por queimadas e impacto sobre a saúde. Por aí que surgiu. 


[22:38] Quando a gente abre o Amazônia Sufocada, tem um mapa muito grande e mostra os focos de calor pelas cores. Vocês comentam que os dados são pegos diariamente de um satélite da Nasa. Como vocês fazem essa conexão? Se vocês fossem ensinar para jornalistas sobre como utilizar o potencial de dados gerados por satélites, o que vocês diriam? 


[23:03] Gustavo Faleiros: Essa conexão em si, a conexão é muito simples, assim, eu poderia te ensinar agora em um minuto a como você pegar o link e colocar numa tabela, porque as ferramentas estão aí. Uma ferramenta do Google, ela permite que você pegue uma API, que é um serviço gerado pelo provedor de dados e traduzir isso em dados estruturados, tabulares. O lance do Amazônia Sufocada é que ele pega essa tabela, que é gerada por esse link da Nasa, e começa a fazer uns filtros. Então, o que ele filtra lá? Ele fala assim: eu quero que as queimadas que estão ocorrendo no mesmo lugar há sete dias sejam coloridas de uma certa forma, eu quero que as queimadas que tenham um índice de calor, esse é um dado que é extraído dessa fonte, que tenham um índice de calor mais alto apareçam também de uma certa forma. Então, você cria regras, filtros, para analisar isso. Uma conexão, ela é fácil ou difícil dependendo de quem é o provedor. No caso da Nasa, eles fazem uma coisa super simples. Eles, todo dia, eles têm um link que, se você entrar, ele vai atualizar uma tabela com os dados ali. Então é simples assim. Mas, se for para usar os dados, especificamente, o que eu ensinaria, eu acho que para quem nunca mexeu com isso, talvez fosse usar os dados do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], melhor do que usar os dados da Nasa. Porque este ano deu um problema nos dados do Inpe, uma parte dos satélites que manda os dados para o Inpe pifou. Então, por isso que a gente acabou optando por usar os dados da Nasa, que inclusive são mais novos e têm mais resolução. Mas os dados do Inpe, nessas de filtrar, eles fazem umas filtragens mais relevantes para os jornalistas brasileiros. Por exemplo, você consegue descobrir qual é o bioma que está queimando, você vai saber se está na Amazônia ou se está no Pantanal ou se está no Cerrado. Você consegue descobrir qual o município que está queimando, então você consegue falar, ah, o município que mais queimou este ano foi Poconé, no Mato Grosso. Eles também fazem uma divisão por países, a da Nasa é regional, ele fala, a América do Sul. Os dados do Inpe eles dividem, isso aqui é Venezuela, isso aqui Bolívia, isso aqui é Colômbia. Então, eu começaria por aí, olhando a base de dados, a ferramenta do Inpe, que é muito boa, para fazer filtragens e aí dependendo da necessidade da publicação, como é que pode transformar isso num gráfico, como é que pode usar o dado para fazer um mapa com o design da redação, essas coisas. Sobre os programas, sim, tem muita coisa do Google. A tabela Google Spreadsheets permite, como ela é online, ela permite exatamente isso: que você consiga fazer uma tabela que é atualizada em tempo real. Só para dar um exemplo do que eu falei que eu poderia ensinar em um minuto, é você entrar ali na tabela Google e, quando você vai botar a fórmula, você escreve = (igual) import. Ele já dá uma série de opções para você, olha, você quer importar uma tabela do Excel. Então, se está tabela está online e sendo atualizada, a sua tabela também vai continuar sendo atualizada. Tem muita ferramenta do Google, mesmo, que dá para usar, o Google Earth, o Google Maps. Todas essas ferramentas são muito boas e eu comecei assim, não fiz nenhum curso, fui mexendo ali e fui aprendendo e depois eu fiz curso com eles, com o pessoal do Google. Quando a gente criou o InfoAmazonia, a gente fez o curso com o pessoal do Google, que eles vieram para dar o curso para a gente. Então, tem muita coisa. Agora, tem outras mais poderosas, mais é… transparentes não é a palavra, mas menos proprietárias. Porque o Google tem o seguinte problema: a partir do momento que você começa a usar mapas deles, o seu uso, a sua informação passa a ser compartilhada com eles. É o que eles colocam como condição para, né, o Google Maps é um produto super sofisticado, eles devem ter gastado sei lá quantos milhões, bilhões de dólares para fazer aquilo. Então, o jeito que eles ganham dinheiro é você compartilhando a sua informação com eles também. Mas tem outras ferramentas. Só para vocês saberem, no InfoAmazonia tudo está construído com base nessa ferramenta aqui, chama MapBox, que é uma ferramenta concorrente do Google, mas a gente construiu os nossos mapas, o nosso jeito de trabalhar usando o MapBox e aí ela está integrada a outras coisas. Mas tem muita ferramenta boa para fazer análise de dados espaciais, a mais aberta é essa aqui, QGIS, que é uma ferramenta de análise geoespacial, de graça, poderosa e tal.


[28:04] Vocês criaram no Twitter o Bot Queimadas, que divulga os dados sobre os pontos críticos. Vocês já tinham usado essa metodologia antes? E por que vocês resolveram adotar essa metodologia? Como está sendo o retorno das pessoas no Twitter?


[28:20] Gustavo Faleiros: Então, a gente usa… Essa ideia de usar alertas já é uma coisa que a gente fez pela primeira vez em 2016 com alertas de enchentes, um projeto que infelizmente não está mais no ar. Está até descrito ali nos nossos projetos especiais, mas ele não está mais acessível, chama Alerta de Enchentes. A gente pegava os dados do Serviço Geológico brasileiro, que é o que faz essa medição que se chama telemétrica, que são as estações nos rios, e eles têm um jeito de que você pode usar esses dados e distribuir. A nossa ideia, desde aquele princípio, que se aplica muito ao bot de queimadas, é você criar uma nova forma de distribuição, a questão está em cima da distribuição. Você dá um valor para a informação através da distribuição. Então, por exemplo, naquele caso qual era o valor? A pessoa poder, ao invés de receber um email da Defesa Civil ou email ou um anúncio da prefeitura, que sabe-se lá como vai chegar, avisando que vai ter uma enchente, você recebe um… você recebia uma mensagem no Messenger. A gente queria fazer com SMS, mas não tivemos recursos suficientes. Agora, o SMS da Defesa Civil ganhou muita força, né, não tem talvez mais razão para a gente competir. Todo mundo recebe mensagem se vai chover, quem está na Amazônia recebe mensagem que vai ter enchente. Eu tenho certeza que nos próximos anos vai ter mensagens sobre poluição do ar, como eu tava falando, "ah hoje vai ter queimada, não saia porque tem muito monóxido de carbono no ar e crianças podem morrer”, sei lá. Não sei como os caras vão escrever essas mensagens, mas vai ser nessa natureza. Mas, então, eu acho que a questão por aí é a seguinte: o jornalismo, ele tem um valor que não é só também escrever notícia ou fazer uma análise e tal, tem um valor em distribuir, também, a informação. Claro que sempre tem uma camada de edição por cima, como você vai escrever esta mensagem, como eu tava falando, mas o  simples fato de você pegar a informação de um jeito, organizar de um outro jeito e distribuir para as pessoas têm um valor. Então, essa era a nossa ideia com os dados de enchentes. Depois disso, a partir do ano passado, a gente começou a fazer um projeto chamado Amazônia Minada, não sei se vocês viram, que é sobre distribuição de…  é um bot que anuncia toda vez que tem um requerimento na Agência Nacional de Mineração para explorar dentro de parques nacionais, reservas. E agora, no dia 5 de novembro, acho que vai sair sobre requerimentos dentro de terras indígenas. Então, toda vez que um cara protocola lá na Agência Nacional de Mineração, "ah, eu quero explorar ouro dentro do território Yanomami", aí sai uma mensagem pelo nosso twitter. Isso só é possível por um compromisso do governo, no caso, em manter as informações transparentes. Se eles não fizerem isso, a gente não consegue fazer. E o Amazônia Queimada (ele ri) - Amazônia Sufocada [o nome certo do projeto] tem sido nessa base também, usa os dados da Nasa, né, dá uma interpretada ali e solta um tweeter. Está sendo um sucesso legal, assim, logo que saiu bombou. Agora deu uma diminuidinha, né, porque as queimadas também já estão desaparecendo, mas foi uma ótima experiência. Foi o melhor bot que a gente já fez, ele é bem estruturado, tem várias análises.


[32:00] É, e depois vocês estão fazendo uma mini-thread, né, eu dei uma olhada.


[32:04] Gustavo Faleiros: Ele é bem montadinho. 


[32:08] Você não mora na Amazônia, você mora em São Paulo, que você falou. Como está sendo a sua rotina de trabalho e como o coronavírus impactou e vem impactando o dia a dia de vocês? 


[32:21] Gustavo Faleiros: Assim, eu realmente viajava duas vezes por semestre, mais ou menos, para a Amazônia, às vezes eu ficava mais tempo fazendo… Quando eu tinha mais tempo de fazer reportagem, eu ficava bastante tempo, mas agora eu tenho ido e voltado, assim. Afetou, porque eu não fiz essas viagens, afetou um projeto que a gente tinha que a gente tinha viagens planejadas e não tivemos como fazer as viagens. Eu acho que a gente vai voltar a fazer agora, em novembro, depende, se vai continuar boa a situação. Mas, na verdade, eu diria que afetou até positivamente, sem querer dizer que a situação é boa obviamente, mas porque a gente também focou em alguns temas que a gente achou que iam ser importantes, como todos esses projetos de Covid, corremos atrás de fundos emergenciais para fazer isso. Foi um momento em que a gente não se abalou, assim, a gente conseguiu se organizar e focar em algumas parcerias que nos ajudaram. Por exemplo, a gente fez essa parceria com o pessoal da Universidade Federal do Amazonas para publicar relatos de indígenas e o projeto Pandemias na Amazônia. Algumas coisas estão rolando. O ano que vem, eu estou mais preocupado com o ano que vem agora. Sim, como a gente vai conseguir fazer os nossos projetos, mas as coisas estão bem, posso dizer que estão se sustentando. 


[33:51] Você pode contar um pouco como é a equipe de vocês e como vocês chegaram à configuração atual?


[33:58] Gustavo Faleiros: Somos três diretores da organização, eu como diretor executivo, a Juliana Mori, que é pessoa que faz o projeto Amazônia Sufocada como diretora de conteúdo, e o Stéfano Wrobleski, que é o diretor de tecnologia, que cuida de toda parte de servidor e agora a gente vai atualizar o site. Tem uma tecnologia por trás do nosso site que ele que cuida, né, como isso é atualizado, que outras coisas podem ser feitas. E ele também é muito bom de fazer análise de dados e algumas vezes nos ajuda. Somos três jornalistas, então, um mais dedicado à tecnologia, que é o Stéfano, uma, que é a Juliana, mais dedicada ao dia a dia, assim, de notícias e tudo, mas que adora fazer mapas, faz os mapas, e eu fico mais nessa parte de parcerias e captação de recursos. Quando posso escrevo uma coisinha ou outra. Essa é a equipe base, somos nós três, a Juliana na verdade começou o InfoAmazonia comigo, a gente é amigo desde a época da faculdade, fizemos várias coisas juntos, então a gente começou o projeto juntos. Depois ela saiu, foi trabalhar no Fantástico [programa da TV Globo], ficou acho que uns cinco anos no Fantástico e acabou voltando no ano passado para ser diretora no InfoAmazonia. E aí, por projeto a gente vai chamando pessoas para trabalhar com a gente. O projeto do Amazônia Sufocada tem um editor próprio, que é o Thadeu (Melo), aí tem um desenvolvedor próprio. No projeto do Amazônia Minada tem toda uma outra equipe, outros repórteres. Para cada projeto a gente vai chamando freelas e se organizando dessa maneira. O ideal seria obviamente, né, começar a estruturar e ter equipes fixas. Atualmente, a gente tem nós três e aí tem uma pessoa que está entrando agora cuidando das redes sociais e uma só cuidando da parte administrativa. É essa a base da organização e aí para cada projeto entram pessoas novas.


[36:06] A construção dos mapas interativos é basicamente o carro-chefe do trabalho de reportagem de vocês. A maioria dos trabalhos se baseia na geolocalização e, juntando isso no jornalismo, você se diz adepto ao geojornalismo. Inclusive, a partir do InfoAmazonia, a gente pode ler um guia, que é o geojornalismo.org, que você elaborou com outros profissionais, e explica que o jornalismo se alimenta da possibilidade do uso das ciências da terra. Você pode falar como tem sido a sua militância em torno desse conceito, qual a aceitação e as dificuldades que enfrenta para difundir? Não sei se ficou claro.


[36:52] Gustavo Faleiros: Não, ficou claro. Estou feliz que vocês olharam todas as coisas que a gente fez, obrigado. Essa história do geojornalismo acho que ela tem sido bem-sucedida porque quando eu falei que o Stéfano cuida de uma plataforma, da tecnologia, essa tecnologia se chama JEO. Ela é um tema de Wordpress, agora ela está se tornando um plug-in na verdade que permite fazer duas coisas. Quando você instala ele no seu Wordpress, ele permite você geotaggear cada notícia. Você pega uma notícia e fala para essa notícia: aconteceu na terra indígena tal, aconteceu em São Paulo, aconteceu no Rio de Janeiro, aconteceu no bairro tal, aconteceu na latitude e na longitude tal. Você atribui um valor geográfico para a notícia. Com isso você começa a criar uma coleção de notícias geolocalizadas. Esse é um aspecto do, digamos, geojornalismo, uma coleção de notícias geolocalizadas. O que o JEO também permite fazer é que você pegue essas ferramentas aí como eu mostrei, o MapBox, tem outras também, tem uma que se chama Carto, que você publique a camada dessas ferramentas dentro do Wordpress. Então, o que ele permite? Que você combine essa coleção de histórias com um mapa, ou seja, que nem você tá vendo no Amazônia Sufocada: você bota um monte de pontinhos em cima do mapa. Esse é o princípio básico: existe uma camada de dados, existe uma camada de notícias. O que existe em comum entre elas é a localização. Aí você coloca uma em cima da outra. Aí, você pode falar, ah, legal, beleza, mas qual é o valor disso? Aí que está, digamos, a nossa militância, como você falou. O que a gente quer provar. Eu quero provar que existe um valor nisso, em fazer essa combinação, porque você consegue mais contexto para as duas coisas. Você consegue mais contexto para as as notícias, porque estão os dados estão ali. Vou dar um exemplo, vou fazer uma notícia aqui no meu escritório, aqui no meu quarto, então eu localizei a latitude e a longitude do meu quarto. Então a notícia é “Gustavo, esse é seu espaço de trabalho, não sei o quê”. Quais são as outras informações que eu posso adicionar para ter contexto? Qual é o consumo de energia desse quarto? Então, essa lâmpada e tal, tal, tal. Qual é o consumo de água? Sei lá, eu bebo dois litros de água sentado aqui. Outras coisas. Aí, é isso que a gente faz. A notícia aconteceu no território indigena tal, qual é a taxa de desmatamento lá? Quantas queimadas teve? Lembra da história da Covid? Camadas. Qual é o negócio de Covid, qual é o número de hidrelétricas lá dentro, o número de concessões de mineração, tal, tal, tal, tal? No longo prazo… Tudo bem, visualmente, ele é interessante: tem os mapas com as notícias. Mas no longo prazo, a nossa hipótese, a nossa proposta - que não está nem um pouco provada ainda que pode ser útil -  é que você possa analisar as notícias como dados. Então eu quero saber quantas notícias foram feitas sobre desmatamento na cidade tal. Então, eu consigo ter uma leitura de como o jornalismo está organizado para cobrir um determinado tema. E no caso pode ser útil para outros temas, sei lá, quantas notícias sobre crime existem no bairro em que eu moro? Quantas notícias sobre centros culturais existem no Rio de Janeiro e onde elas estão? Digamos, eu falo que o sucesso máximo do geojornalismo vai ser se um dia ele conseguir ser que nem o Pokémon Go. Ou seja, ao invés de você distribuir monstros, você distribui notícias. Ou seja, as pessoas estão andando na rua,  ela fala assim, ah deixa eu ver essa notícia que está aqui do meu lado. Então, você vê, ah, olha aqui, aquela notícia está contextualizando uma localização, porque você consegue distribuir essa notícia no espaço. Ela se torna uma coisa presente no espaço. Na Amazônia é bem difícil isso, porque uma notícia está aqui, a próxima vai estar a três mil quilômetros. Mas num ambiente urbano pode ser muito interessante ter uma distribuição de notícias. Isso já existe, não só no Pokemon Go, tem guia de turismo que é assim. Você vai andando e ele cria uma realidade virtual que você fala, ah, quero saber a história desse prédio. Você passa o QR code aqui e ele traz a informação daquele prédio. Então, seria um pouco esse formato que é a ideia. Mas só para terminar essa parte de geojornalismo, ele está indo bem porque ele tem vários… Por exemplo, existe o InfoAmazonia e existe um projeto igual no Congo, existe o InfoCongo. Tem um projeto igual na Indonésia, tem um projeto no Nilo, tem o InfoNile. Tem umas nove plataformas que utilizam esse mesmo JEO, com essa mesma ideia, você cria uma coleção de história, cria uma coleção de dados e combina as duas coisas. Então essa rede existe, é uma rede global, apoiada principalmente pela Earth Journalism Network, que é até legal se vocês quiserem ser membros de lá, porque tem um monte de oportunidades de bolsas, que apoiou o InfoAmazonia desde o início. Essa rede, uma rede de jornalistas ambientais de todo mundo abraçaram, vários desses jornalistas, parte dessa rede, eles abraçaram o conceito de geojornalismo porque eles queriam ter uma plataforma um pouco parecida com o InfoAmazonia, com mapas interativos, que trabalha em redes, que é transnacional. Então hoje em dia, além do InfoAmazonia, tem o InfoCongo.org, tem o InfoNile, acho que é ponto com ou ponto net. Tem um na Indonésia, que eu acompanho um pouco menos, e tem um outro na Índia. Todos tem essa característica de olhar para ambientes. Então, você não cobre uma cidade, ah, eu cubro Manaus, eu cubro Belém, sei lá, Calcutá; ele cobre a Amazônia, ele cobre uma bacia hidrográfica, ele cobre o Nilo, ele cobre o Thirdpole, é interessante, porque é o Terceiro Polo, o Terceiro Polo são os Himalaias, tem a Antártica, o Ártico e o Terceiro Polo seria a Cordilheira do Himalaia.  Então é um pouco essa ideia aí.   


[44:07] Eu imagino um pouco do que você quer dizer, mas primeiro eu queria saber porque vocês não usam as ferramentas do Google e vocês listam que a única base de dados é o Open Street Map. Seria mais difícil fazer esse trabalho sem o Open Street Map e qual a importância para vocês dessa base colaborativa deles?            


[44:32] Gustavo Faleiros: O lance do Google é que realmente os termos… A gente usa algumas ferramentas do Google eventualmente. O Google Earth, tal, eles são muito generosos em prover imagens de satélite, a gente faz análise e tal. Não temos restrições. O problema de usar, construir uma ferramenta, em cima do Google Maps e do Google Earth é que, uma, elas são meio pesadas. Essa é uma questão que nos pareceu. A outra é que o termo de uso é bem proprietário, mesmo, significaria que tudo que a gente colocasse lá, em teoria, eles poderiam utilizar. Mas a história do Open Street Map, ele vem, por um lado, muito do MapBox, ou seja, todos os nomes geográficos, todas as ruas, por exemplo, que são atualizadas no MapBox, elas vêm da comunidade Open Street Map; então, indiretamente a gente usa. Qual é a vantagem mais direta que a gente tem? Eu tenho um exemplo bem concreto, que eu acho que explica. Em 2014 nós fizemos uma matéria na Colômbia. Aí fui lá, num lugar chamado Los Pozos, onde tinha exploração de petróleo e tal. Quando eu voltei para geotaggear a minha notícia, quando eu procurei Los Pozos e tal, não tinha no mapa. Então eu falei, putz, e agora? Mas eu sempre quando eu vou no campo eu levo o GPS comigo, eu tinha a localização. O que é que eu fiz? Eu entrei no Open Street Map, quando editei a localização, eu criei Los Pozos no Open Street Map. Quando eu criei lá a localização, a comunidade também pode corrigir, eles falam não você errou aqui, por dois graus, a localização, tem que mudar. Mas quando eu criei, automaticamente apareceu no mapa do InfoAmazonia. Quando eu mudo a base de dados de nomes geográficos locais, de ruas, ele automaticamente está conectado com a base do MapBox e tal. Então, é isso, é uma comunidade que vai criando lugares e, em alguns casos, é muito melhor que o Google Maps, por exemplo. Para mapeamento de comunidades que não estão no Google Maps, são mapeados no Open Street Maps. Tem outros lugares, outros países onde o Open Street Maps é muito mais detalhado que o Google Maps, porque ele é uma comunidade colaborativa, é realmente… são pessoas que fazem a pesquisa ali. Você até pode editar lugares no Google Maps, mas a comunidade não é tão potente quanto a do Open Street Maps.


[47:08] Vou aproveitar que você falou de escalas, é muito importante para o trabalho de vocês, do hiperlocal e a visão ampla e panorâmica que o mapa oferece, qual você acha que é a importância de conjugar essas escalas, na medida em que hoje em dia o conceito da chamada cobertura hiperlocal está sendo bastante valorizado nas discussões sobre as tendências do jornalismo atualmente? Em que medida o jornalismo pode contribuir para aprofundar essa tendência e qual a importância da contribuição de vocês?


[47:45] Gustavo Faleiros: Isso tem tudo a ver com a história do geojornalismo mesmo. Porque, para o geojornalismo ser efetivo, na nossa visão, ele tem que permitir essa viagem entre o hiperlocal e o regional, o global, porque o personagem principal é o território, na verdade. Claro, o território inclui as pessoas, mas você tem essa visão do território. Você fala assim, eu quero falar da Amazônia, eu quero falar do rio tal, eu quero falar da bacia tal. E nesse espaço as coisas estão conectadas. Por isso que eu falava das ciências da terra, porque as ciências da terra realmente olham a terra como um ente só, a terra inteira, mas aí você vai diminuindo essa escala, você consegue ver sistemas. O sistema da bacia amazônica, o sistema, sei lá, do bioma amazônico ou o sistema da bacia tal e tal.  E aí, em termos narrativos, a combinação dessa escala é que é interessante, então é que você consegue mostrar exatamente a dimensão das coisas e isso vai ser cada vez mais importante, na minha opinião, por conta da questão da mudança climática. Para fazer com que as pessoas entendam, para que a gente possa entender qual é o impacto de um sistema no final global, no mínimo regional, na sua vida, você tem que falar "gustavo estava caminhando na rua, caiu uma super chuva, ficou ilhado e… ficou alagado com a super enchente". Se eu consigo relacionar esse fato com um fato macro, que é a mudança climática, sucesso. Então, eu acredito que isso é possível através das visualizações de imagens de satélites, por isso que é tão potente a visualização para entender o sistema. Quando foi que eu me liguei nisso? Quando eu consegui realmente ver que, isso que hoje em dia se fala tanto, o tal dos rios voadores, que a chuva que sai da Amazônia, você consegue ver ela chegando nas outras partes do Brasil. Você pode até explicar isso para os outros: “A Amazônia é ótima, ela ajuda a gente a ter chuva e tal˜,  mas se você vê, eu acho que você consegue explicar melhor. Então essa relação entre o hiperlocal, o regional e o global, que eu que pode ser viável, que é importante, e não é novo para o jornalismo. Digamos que esse esforço narrativo ele sempre é feito, eu vejo todo dia ele no Jornal Nacional [telejornal da TV Globo]. Sempre começa com um caso, né, “Dona Maria tomou um calote e não sabia que estava sendo enganada, como ela - tchan - 500 pessoas tomaram calote no último mês”. Você sempre tem um caso e você faz o zoom out. Seria a mesma técnica. Tal pessoa, tal comunidade impactada, vamos entender o que está por trás, aí no caso no âmbito ambiental, né. É a mudança climática? É o desmatamento causando alguma coisa? São as queimadas? É a mudança no sistema natural causando impactos locais.


[51:02] Nos termos técnicos, você pode falar um pouco de forma resumida, quais as outras ferramentas que vocês acham importante destacar para dar conta dessa coleta de dados de vocês?  


[51:26] Gustavo Faleiros: Bem, tem um monte de coisas que o pessoal faz com código. Então, eu vejo que essas duas linguagens de códigos são as mais utilizadas para fazer esse tipo de coisa, tanto Python quanto R. Eu mesmo não sei programar num nível, assim, profissional, faço uma coisinha ou outra quando é necessário, mas eu acho que, se você tem profissionais que têm essa capacidade, acontece muita coisa. Por exemplo, o Alerta de Enchentes a gente teve de usar essa capacidade dos desenvolvedores para organizar os dados, raspar os dados da base de dados do governo e transformá-los numa base de dados nossa. Em termos de ferramenta, deixa eu pensar aqui rapidinho, tudo que você aprender a fazer na parte de tabelas mesmo, seja no Excel ou no Google é o começo de tudo, para fazer essas análises e filtragens. Aí, pensando no processo todo, a gente utiliza muito imagem de satélite e utiliza o QGIS, que eu já passei pra vocês, para fazer as análises geoespaciais. As visualizações a gente faz ou no MapBox ou nessa outra que é o Carto, também que é mais para mapas, porque aí, no Carto, por exemplo, você consegue usar SQL. SQL é muito legal, não sei se vocês já testaram, é um pouquinho mais intuitivo, que é a linguagem de bancos de dados. Então, se você tem uma tabela e você quer filtrar de uma maneira… É um jeito que você pode juntar tabelas e juntar, sei lá, uma coluna de uma tabela numa outra e aí comparar duas bases diferentes por um mesmo parâmetro. Eu quero tudo que seja a respeito do Rio de Janeiro, de tal ano, só com essa linguagem você consegue fazer muita coisa. Deixa eu pensar um pouquinho mais aqui. Bem, eu mencionei que para imagens de satélites tem algumas opções aqui que são legais (ele digita algo no computador). Dá pra começar no Google Earth, aí tem uma base que também é interessante de olhar que é Planet. São coisas que a gente usa meio que direto, assim, no nosso… São plataformas na verdade em que você desmatamento, queimada, poluição, esse tipo de plataforma. (ele digita como mensagem as seguintes ferramentas: Global Forest Watch, Resource Watch, Nasa, World View, Inpe, BD Queimadas, Terra Brasilis). Aí as outras são sobre imagem de satélite, as outras são mais linguagem de programação e aí tem umas coisas legais, são bem massa para fazer visualização. São ferramentas para criar mapas interativos ou aquela coisa meio, tipo, compare antes e depois (ele digita o nome das seguintes ferramentas: StoryMaps.JS e JuxtaPose.PS). As ferramentas do Google realmente são um ótimo começo, porque dá para você criar mapas simples, dá para achar imagem de satélite e aí, a partir daí, ir crescendo. E tem um monte de outras coisas que certamente eu não conheço. Se em algum momento vocês quiserem fazer uma coisa mais técnica, o Stéfano é um cara ótimo para isso. Ele tem feito muita coisa, ele tem feito uns tutoriais de QGIS e está sendo bem legal.  


[55:17] Hoje é muito comum apostar no multimídia, mas tem muita reportagem que, quando usa dados, fica parecendo mais um relatório que uma reportagem em si. Como vocês dosam esses recursos multimídias para construir uma narrativa eficaz, sabendo a dosagem certa?


[55:41] Gustavo Faleiros: Pergunta difícil essa, hein. Ah, eu acho que a gente está aprendendo ainda. Tem um lance que eu tenho pensado muito que é a necessidade de construir grandes plataformas. A gente fez uma recente sobre o mercúrio [Mercúrio, uma chaga na floresta], está lá, também na capa do InfoAmazonia, mas deu um trabalho tão grande que eu fiquei pensando, pô, se a gente tivesse publicado as matérias picadinho, uma por uma, acho que teria tido mais leitura do que botar um caminhão no meio da sala, assim, sabe? Então, não sei. Realmente, não dá só para ficar jogando dados e não interpretar. Não dá, assim, só para botar os dados. Então, eu acho que vai um pouco de história por história. Mas eu concordo em princípio com isso, assim, algum balanço tem que ter. É mais sobre como contar a história bem contada, acima de tudo. E não é fácil, você erra um monte de vezes, mesmo. E eu acho que a gente está aprendendo. Algumas vezes a gente acerta, às vezes com coisas muito mais simples a gente acerta do que com coisas que a gente complica pra caramba. Eu tenho achado que os vídeos têm sido uma coisa mais de linha de frente, assim, acima de tudo. Vamos ver. A gente vai fazer um teste, eu acho que até janeiro a gente vai soltar um documentário sobre mercúrio e eu tenho muita esperança que esse documentário vai ser uma coisa legal, vai mostrar um caminho novo aí. 


[57:17] Assim que a gente entra no site tem um convite que se chama "participação cidadã", que é para as pessoas enviarem artigos e tudo mais. Você pode falar um pouco sobre há quanto tempo existe isso no site e como tem sido o retorno? Já chegou muita coisa? Vocês fazem checagem em cima do que vocês recebem? Vocês chegam a pagar esses colaboradores?


[57:48] Gustavo Faleiros: Então, isso existe desde o início do InfoAmazonia, desde que a gente criou o InfoAmazonia existe essa possibilidade, sempre chegou muito pouco, a gente não incentivou, na verdade, porque a gente sacou que ia ser uma coisa difícil de a gente manter. As coisas que chegaram não foram muito de boa qualidade, então a gente até vai derrubar, agora pro novo site não vai ter mais. Eu acho que tem um enorme potencial, mas o trabalho não está em só criar a ferramenta, a ferramenta até é legalzinha, você consegue entrar, mapear sua notícia e tudo. O trabalho está na articulação. Quando ele funcionou melhor foi quando a gente treinava algum parceiro e falava assim, oh, em vez de você mandar sua matéria por email, entra ali e já coloca, porque facilita muito para gente, você já mapeia e já a gente já sabe. E até no projeto Pandemias da Amazônia, a gente pensou em fazer dessa maneira, mas, aí, como a gente não vai usar mais, já não estamos utilizando, nem no Pandemias na Amazônia. Então, em teoria até era uma ideia legal, mas não rolou, não rolou porque não teve articulação suficiente. Eu acredito que é legal ter participação, mas depende de ter uma pessoa praticamente no campo conversando com as pessoas, treinando, criando formatos. Não é uma coisa trivial. Então, se tudo der certo em duas semanas nem vai ter mais isso aí.


[59:15] Vocês já usaram num outro contexto do site?


[59:20] Gustavo Faleiros: Na verdade não, sabia, nunca foi uma coisa que deslanchou mesmo, de verdade. Usamos só nesse contexto de, às vezes, publicar matéria de parceiros através, pedindo que os parceiros nos alimentassem por ali. Mas nunca, crowdsourcing, né, aquele, de colaboração, jornalismo colaborativo e cidadão nunca foi uma coisa que a gente conseguiu avançar muito. 


[59:47] Vocês ganharam há pouco tempo um prêmio de jornalismo com a reportagem da Venezuela e o trabalho seria muito bom para a força colaborativa das redes, porque tem cinco veículos diferentes, vocês do Brasil e mais dois da Venezuela, né? Levou um tempo para ser feito, alguns meses, pelo que eu li. Você pode contar um pouco como foi pensado o projeto, como foi a participação de vocês do InfoAmazonia? 


[1:00:19] Gustavo Faleiros: Claro. Então, esse é um projeto que a gente começou mesmo, na verdade ele é um projeto que foi evoluindo. Primeiro, tem esse aqui [Arco Mineiro], que também ganhou o mesmo prêmio na verdade, antes. Então ele começou com isso aqui. Em 2016, foi no Festival Gabo, sabe? Festival da Fundação Gabriel García Márquez, que acontece todo ano em Medellín, um festival super legal, este ano vai ser online, até recomendo que vocês deem uma olhada, um puta festival, super discussões. Por coincidência, nesse festival, em 2016, naquela coisa assim, pega o ônibus para ir para o auditório, naquelas coisas eu sentei do lado de um jornalista venezuelano chamado Oscar Murillo, que na época era o editor do Correo del Caroní. E ele estava concorrendo a um prêmio lá no festival por uma reportagem que ele tinha feito sobre uma chacina ocorrida no Arco Mineiro, que é uma região da Venezuela de garimpeiros. Eles tinham feito uma cobertura sobre a morte de 16 garimpeiros, ninguém sabia quem tinha matado esses garimpeiros. Eles ficaram ficaram desaparecidos, isso ficou conhecido como (ele digita o nome) Massacre de Tumeremo e eles fizeram uma cobertura, tudo, tudo, e ele ficou me contando o que eles foram descobrindo nesse… Porque eu tinha visto que eles estavam concorrendo ao prêmio, me pareceu meio surpreendente, assim, a história, eles fizeram um um trabalho meio que de detetive, foram descobrindo, ajudaram até a descobrir onde os caras estavam enterrados. E o que eles foram descobrindo é que na verdade quem tinha matado esses garimpeiros tinha sido o Exército venezuelano e o Exército venezuelano tentando expulsar eles de uma mina de ouro. E aí ele me contou. Isso é só o começo de uma grande confusão que está se armando lá, disse que o governo está querendo legalizar e conceder áreas de mineração, então eles estão querendo expulsar os garimpeiros porque eles querem dar os garimpos, as áreas de mineração, para as empresas estrangeiras. Então, e essa área que foi criada, de concessão, chama o Arco Mineiro do Orinoco, na Venezuela. Por coincidência, nessa mesma época eu estava trabalhando na Earth Journalism Network como gerente da rede. Apareceu lá na rede, pedindo apoio para fazer uma reportagem, um jornalista holandês, que é o Bram Ebus, um jornalista investigativo, ele falando assim “eu quero fazer uma reportagem sobre o Arco Mineiro da Venezuela porque o bicho está pegando lá”. Aí eu falei, bem, eu conheço um cara na Venezuela que acabou de me contar isso, vamos tentar um recurso, então aí a gente fez essa primeira reportagem, o Arco Mineiro, que contava todo o rolo que tava acontecendo lá. E a partir dessa primeira reportagem se formou essa união, com o Correo del Caroní, que é da Venezuela, e eles foram tentando conectar a gente com outras pessoas. E aí, depois a gente fez esse aí, que ganhou o prêmio agora, que é o Paraíso dos Contrabandistas, que está nesse link aqui, que é a segunda parte dessa história. E aí não está contando só problema lá, mas está contando como é que o ouro sai da Venezuela e vai parar em Miami, por isso que a gente procurou o Miami Herald, como esse ouro vai parar na Holanda, na Bélgica, que são os grandes centros de fundição, Suíça, na Europa. Então, esse segundo especial, que ganhou o prêmio agora, ele é focado nas rotas de tráfico de ouro da Venezuela. E, finalmente, o mercúrio, que a gente soltou agora, este ano, ele é a terceira parte dessa história toda, porque aí a gente olhou para outra coisa, que é como o tráfico de mercúrio, que é proibido, na verdade, está ligado a tudo isso. Porque para o outro ser explorado de maneira tão ilegal ou às vezes até de uma maneira artesanal, nesses garimpos e tal, ele precisa do mercúrio, senão você não consegue extrair o ouro da terra. Você joga o mercúrio misturado ali e ele junta com o ouro, então ele realmente, com isso ele, como se colasse no ouro, ele faz uma bola junto com o ouro, aí depois você queima essa bola e só fica o ouro. Então o mercúrio foi a terceira parte. Então é isso, isso tudo é parte de um mesmo esforço de mostrar que tem uma articulação muito grande, hoje em dia, de redes criminais e uma confusão enorme na fronteira com o Brasil, por conta dessa situação na Venezuela, desse lugar aí que é o Arco Mineiro. Porque tem muitos atores, muitas, como eu disse, redes criminais interessadas em usar a confusão que está na Venezuela agora para tirar ouro da Amazônia de lá e levar para outros lugares. E o preço do ouro agora com a pandemia chegando a níveis recordes, essa coisa está totalmente sem controle, lá, aqui também, né, a gente já fez reportagens aqui e vai continuar fazendo, também, principalmente na região do Tapajós, na região dos Yanomami, que é nessa região aí da fronteira com a Venezuela, onde o garimpo virou a lei. Então, parece que não vai terminar tão cedo essa história aí. 


[1:00:19] Vocês trabalham com uma rede de parceiros, Amazônia Real, Ciência Hoje, Global Voices, (Agência) Pública, ((o eco)). Como vocês chegaram a uma configuração para todas essas parcerias? E por que isso?


[1:06:17] Gustavo Faleiros: Então, essas parcerias, elas eram mais fortes naquele momento que eu falei que a gente usava essa ferramenta, quando a gente tentava, quando a gente estava tratando o InfoAmazonia como uma ferramenta. Por quê? Porque aí a gente oferecia para as pessoas, para esses meios, que eles mapeassem as notícias deles conosco. Então, a ideia era criar mapas de notícias, aquela coleção de histórias. Isso tudo também está mudando, assim, porque não parece que é mais um caminho para a gente. Sim, parcerias como a gente fez agora, com o Miami Herald, com a (TV) Globo, eu não sei se você viu a matéria que a gente fez com o Fantástico e tal, que é desse especial do mercúrio. É desse especial aí, mercúrio. Depois se você entrar no site, você clica no linkezinho da Globo ali e te leva para a matéria do Fantástico. Então esse tipo de parceria de investigação pra gente vale muito mais. Essa parceria que a gente tinha com o Global Voices, com a Amazônia Real, com a (Agência) Pública, com o ((o eco)) inicialmente, também, era para criar uma base de dados de notícias. Então, não é que a gente republicava a notícia, a gente republicava só o título da notícia. A gente pegava assim aconteceu em Manaus, essa notícia aconteceu em Belém. A gente classificava a notícia desses parceiros para ter um mapa interativo de notícias, mas isso já também não é um caminho pra gente por conta do trabalho que isso gera. A gente fazia isso manualmente. O que a gente vê no futuro é o seguinte, esse plug-in que eu estava te falando, o JEO, ele não tem essa funcionalidade, mas ele vai ter no futuro, que é assim: você instala ele no seu Wordpress, aí ele vai ter um botãozinho que fala assim, eu quero que as notícias que as notícias que eu publique no seu site sejam enviadas para uma base de dados comum. Aí, se forem notícias sobre a Amazônia, pode ser o InfoAmazonia, se for notícia sobre o Congo pode ser o InfoCongo. Aí, a rede começa a alimentar uma base de uma maneira automática. Porque a gente fazia manualmente e não estava rolando. Então esse que é o plano, ligado àquele plano, lá, do geojornalismo, de criar uma base de dados de notícias que você possa analisar, tantas aconteceram em tal lugar e falavam sobre tal coisa. Aí nesse caso você (talvez) consiga ter uma amostra relevante de notícias. Esse é, digamos, o plano, mas é difícil de implementar, é difícil de provar que ele tem um valor, monetário mesmo, qual é o valor de fazer algo assim. Então, por enquanto ele está meio congelado. 


[1:08:59] No jornalismo digital, qual você acha que é a importância dessas parcerias? 


[1:09:04] Gustavo Faleiros: Essencial. Ninguém trabalha sem parceria hoje em dia para fazer as coisas mais relevantes e é legal porque está todo mundo percebendo isso e está correndo atrás. No fundo, essa história na Globo foi isso, assim, deu super certo porque eles também estavam precisando mostrar que eles também fazem parceria. Então eles pegaram a gente e falaram, olha aqui, oh, tem uns caras aqui e a gente vai fazer parceria com eles. Viu? A gente também faz jornalismo colaborativo investigativo e transnacional. Eles puderam falar isso. Então, a parceria é muito boa. Você vê os prêmios que estão saindo, né, são todos nessa base. O Panamá Papers é um negócio de maluco, é a prova de que se você fizer um negócio desse você derruba ministro, presidente. É muito interessante, você entra na página do Panamá Papers e fala quais são os impactos? “Derrubamos o primeiro-ministro do Paquistão. Derrubamos o primeiro-ministro da Islândia”. Pô, demais né? (ele ri) Conseguiram.             


[1:10:07] Uma das coisas que eu dei uma olhada no site de vocês é o InfoAmazonia Colômbia, mas vocês também têm ligações com veículos do Peru, da Venezuela e tudo mais. Como é feita essa parceria de vocês e como está sendo a evolução?


[1:10:25] Gustavo Faleiros: É, os veículos na Venezuela, no Peru, são super parceiros, mas a gente faz com investigações pontuais. Agora, na Colômbia, realmente, a gente tem uma parceria essencial que é com o El Espectador, o jornal de lá, que eles pagam uma jornalista nossa para trabalhar lá com eles. Então a gente tem uma jornalista na Colômbia que está dentro da redação e quase tudo que é publicado sobre Amazônia é assinado pelo InfoAmazonia lá. Então, a gente é bem conhecido na Colômbia, mais do que no Brasil, porque sai num jornal grande, então quando eu vou lá, eu falo, ó, eu sou do InfoAmazonia e tal, InfoAmazonia que trabalha com El Espectador. E lá isso surgiu de uma boa relação que a gente tinha  com eles. Em 2014, quando a gente começou a separar o InfoAmazonia do ((o eco)), a gente fez meio que um roadshow, reuniu um outro editor, a gente foi para a Colômbia e para o Peru e fomos visitando vários jornais, várias ONGs, um monte de lugar, encontrando um monte de gente para falar: ó, o InfoAmazonia quer fazer parcerias e tal. E dessa viagem surgiu uma boa relação com o El Espectador. Em algum momento, eles falaram: olha, a gente quer fazer um projeto especial sobre a Amazônia, pode ser no nome de vocês, e surgiu. E está rolando, está rolando. Eles produzem, a pessoa, por exemplo, a repórter que está lá, chama Juliana também, ela que coordena a nossa parte de notícias em espanhol, publica no twitter InfoAmazonia em espanhol. Então, é a melhor parceria que a gente tem, já bem estabelecida, e espero que dure por muitos anos. Precisamos melhorar a plataforma que está um pouco desatualizada, dos dados, mas o principal, que é reportagem que sai no jornal e a nossa conexão, está mantida.


[1:12:22] Os dados gerados por satélite sobre desmatamento têm gerado muitas controvérsias políticas em nível federal. E vocês também fazem coleta de dados sobre os desmatamentos. Eu queria saber um pouco como essas recentes controvérsias têm gerado demanda para vocês, inclusive no plano internacional?


[1:12:46] Gustavo Faleiros: É, de fato, sempre surge alguém que precisa esclarecer, jornalistas conhecidos que querem entender o que está acontecendo, quais são as melhores bases para utilizar. A polêmica trouxe o assunto para o destaque. Não acho que a polêmica seja justificável, porque o Inpe é muito sólido e muito reconhecido. Então, o que a gente tenta fazer em muitas das matérias que a gente gera sobre queimadas, sobre desmatamentos é esclarecer como funcionam os sistemas, da maneira mais acessível possível, "ah, o satélite tal, a resolução tal, a frequência tal". Então, essas coisas são recorrentes e acho que tem um monte de exemplos legais que saiu na grande imprensa e na imprensa internacional, explicando, às vezes com muito mais detalhe que a gente, como são esses sistemas, porque um é bom, porque o outro não permite ver isso. Então, nossa  demanda, na verdade, surge mais assim, digamos, de uma assessoria informal, assim, a gente ajuda amigos. No ano passado, quando teve o lance da queimada, teve muita demanda por entrevistas, assim. Eu falei um monte de vezes em, sei lá, tevê argentina, tevê não sei o quê, rádio  colombiana. Aí falava mais sobre essa questão das queimadas, como a queimada está ligada ao desmatamento e tal. A gente se beneficia do sistema, nossos dados de desmatamento também são atualizados e cada vez que eles são atualizados, eles se atualizam automaticamente. Possivelmente, em algum momento, a gente pode pensar também em fazer um bot de desmatamento. Então, os dados, pra gente, continuam sendo muito úteis. O que mais eu poderia dizer sobre isso? Nada, assim, pra gente não mudou muito,  assim, mudou o destaque para o assunto, eu diria.


[1:14:54] Você pode falar um pouco da questão do financiamento de vocês? Vocês são de 2012, são oito anos, quase uma década. O que vocês aprenderam nesse sentido, o que vocês querem almejar ainda? Você falou do documentário, né? Uma coisa nova, mas a gente queria saber um pouquinho disso. 


[1:15:22] Gustavo Faleiros: Então, a maior parte dos financiamentos não mudaram. Vamos continuar dependendo de grandes doações internacionais de fundações, sejam elas ligadas à comunicação, sejam elas ligadas ao meio ambiente. Nesses anos todos os maiores doadores vieram dessa linhagem, seja a Internews, que é a Earth Journalism Network, ou a Skoll Foundation em Avina. São grandes fundações internacionais que apoiam algum tipo de causa e resolveram apoiar o InfoAmazonia. O que surgiu mais claramente nesses últimos anos é a necessidade de investir ou dedicar tempo também de criar essas parcerias, que nem essa que a gente estava falando da Venezuela, porque essas parcerias também estão trazendo bastante recurso. Não tanto quanto as fundações, mas a gente fez um outro especial [Tierra de Resistentes], que eu não sei se vocês viram. Nem tudo a gente conseguiu colocar na nossa página de projetos especiais, mas esse é um projeto grande que a gente está envolvido, que são jornalistas de dez países mapeando, ou, mapeando assim, criando notícias sobre líderes ameaçados. Líderes que defendem de alguma forma o meio ambiente ou seu território: indígenas, ribeirinhos, quilombolas, em dez países, não só no Brasil. E a gente fez as reportagens do Brasil e isso é uma prova, assim… é um projeto super legal, super ambicioso, também já está começando a ganhar alguns prêmios, mas que traz recursos. O pessoal que coordena, que também é da Colômbia, eles vêm com recursos pedir a nossa colaboração. Esse tipo de aliança está sendo muito boa pra gente, para criar matérias e aportar recursos. Então, a gente está vendo como um caminho, continuar investindo em parcerias, essa coisa da doação, é muito importante. E aí a outra parte que é importante são os próprios editais. Tem muito edital internacional e nacional, concursos, prêmio que dá dinheiro. A gente tem que continuar, sempre, aí não pode parar de mandar proposta. Qualquer proposta tem que participar, qualquer proposta tem que mandar. Não tem jeito.


[1:17:39] Você como especialista de cobertura de questões ambientais, com foco na Amazônia, como você avalia a cobertura do assunto feita por veículos estabelecidos, por outros veículos? 


[1:17:53] Gustavo Faleiros: Neste momento muito boa. Já foi ruim, não sei o quê, já foi meio complicada, mas agora dos grandes veículos que a gente conhece, os maiores do Brasil, ou seja Globo, a Folha (de S. Paulo), a TV Globo - O Globo, Folha (de São Paulo), Estado de S. Paulo, Valor Econômico, eu diria que é muito bom. Eu já soltei uns três tweets falando: o Jornal Nacional hoje parece o Globo Ecologia porque só tem matérias de meio ambiente. Tem uns dias que começa e vai meia hora só de meio ambiente. Não dá nem pra competir, os caras muito competentes no assunto, o André Trigueiro (da Rede Globo), é muito boa a cobertura, é difícil competir, na verdade, a Fabiana Maisonave na Folha (Folha de S. Paulo), a Giovana Girardi do Estadão (Estado de S. Paulo). São super repórteres, manjam muito do que estão falando, conhecem.  


[1:18:52] A gente está acabando, eu vou focar nas perguntas mais voltadas para jornalismo mesmo, mas, assim, a questão ética de quem trabalha com dados é sempre disponibilizar a base desses dados e explicar o caminho que vocês fizeram e tudo mais. É um tipo de prática do jornalismo e é mais recente, não é bem novo, mas você acha que poderia incorporar especificamente isso em período de ampla desinformação. 


[1:19:27] Gustavo Faleiros: Eu acho que isso é uma das principais inovações do jornalismo no momento. Porque o jornalismo, apesar de cobrar transparência e ser o bastião de cobrar informação livre, não sei o quê, é bem pouco transparente sobre como faz o seu trabalho. Compara, por exemplo, com cientistas ou com um trabalho que você faz na universidade, em que você tem que referenciar tudo, botar bibliografia, ser claro sobre as suas fontes. O jornalismo pode ser bem obscuro. Você cria uma matéria, você não explica o que você leu, que base você utilizou. Isso está mudando. Não no lance da fonte anônima, que isso vai continuar existindo e vai ser muito útil, mas reportagens específicas de dados, elas muitas vezes têm que ter a metodologia, é que nem um estudo. Não sei se vocês já se depararam com isso aqui, mas o livro está até… disponível online. Depois eu posso tentar achar e passar. Esse livro (Precision Journalism) é demais, ele é de 1973. É o cara (Philip Meyer) que realmente inventou o jornalismo de dados. Porque aqui dá uma base muito boa, que ele fala assim: se o jornalismo se aproximar mais da ciência, ele vai ser muito melhor e ele vai desarmar vários mitos, e o exemplo dele é fantástico, ele ganhou o Prêmio Pulitzer fazendo uma reportagem junto com um pesquisador. Em poucas palavras, tem um monte também de estudos de caso que ele explica como que ele fez, mas em 1967, 68, teve uma grande revolta em Detroit, dessas revoltas raciais, assim, mataram, teve algum, não sei se foi uma coisa parecida com George Floyd, assim, que mataram alguém ou bateram em alguém e aí a galera começou a quebrar tudo, começou a queimar tudo e não sei o quê, mas as notícias que saíram falavam que a maioria das pessoas que tinha participado dos protestos eram negros que tinham migrado do Sul para o Norte dos Estados Unidos e estavam descontentes com a vida que eles tinham lá. Essa foi a hipótese do senso comum, os jornais já imprimiram isso sem checar. Aí, o que ele fez, ele em pouco tempo, né, no tempo jornalístico, ele foi nas prisões com um cientista social e aplicou pesquisas, o máximo que ele pôde, com as pessoas que foram presas durante os protestos e com pessoas que tinham participado dos protestos e não tinham sido presas. Aí, é uma longa história de como saíram os resultados, mas era totalmente diferente do que tinha saído nos jornais. Ou seja, aí ele processou as repostas no computador, também, que foi uma coisa inovadora na época. Aqueles cartões de resposta ele colocou no computador e chegou a uma conclusão que não tinha nada a ver com o que os jornais tinham publicado. E aí, a partir disso, ele começou a falar, olha, se você fizer uma aproximação do jornalismo com a ciência, nesse sentido de falar assim: eu tenho uma hipótese, eu acho que as florestas estão queimando porque o Bolsonaro é mau, essa é minha hipótese, então eu vou achar alguma forma de levantar dados que provem isso. O dia em que o Bolsonaro falou que o Leonardo DiCaprio estava botando fogo, realmente, teve um aumento de 40% nas queimadas. Então, eu consigo chegar uma conexão cientificamente provada que cada vez que o Bolsonaro solta um tweeter falando mal do Leonardo DiCaprio, alguém acende um fósforo e queima uma floresta - o extremo, né? Mas, nesse sentido, assim, respondendo a sua pergunta, o jornalismo é muito vago às vezes. E se eu me proponho a responder uma pergunta complexa, eu tenho que mostrar como é que eu vou responder a essa pergunta. Ciência. Eu vou entrevistar tantas pessoas ou eu vou coletar a minha amostra e vou analisar utilizando esse método, eu acho que essa é a inovação: a metodologia do jornalismo de dados ser compartilhada transparentemente. Foi assim que a gente fez e assim que a gente chegou a essa resposta, que pode ser contestada também, por que não? 


[1:24:14] A última. Você falou um pouquinho, mas se você quiser complementar, o que você imagina para o futuro do InfoAmazonia e para o futuro do jornalismo em geral e brasileiro?


[1:24:19] Gustavo Faleiros: Eu acho que o InfoAmazonia vai crescer muito ainda como um veículo especializado em cobrir esses grandes temas ambientais, seja de mudança climática, essas grandes mudanças. Menos, talvez, relevante - acho que essa é a palavra - para o público local da Amazônia, mas mais relevante para o público internacional, que é mais ou menos onde a gente se insere. Por muitos anos, eu tinha vergonha de falar, pô, mas eu sou aqui de São Paulo e só falo sobre a Amazônia e tal. Hoje em dia eu acho que, na verdade, é uma grande vantagem. A gente, assim, considera a Amazônia o centro do mundo e sou a periferia, eu estou olhando para o centro do mundo e escrevendo sobre o que eu acho que é a coisa mais importante do mundo hoje. E eu acho que essa visão vai se consolidar não por razões boas, na verdade, por razões ruins, porque cada vez mais sendo destruída, cada vez mais impactos vão ser visíveis. É uma coisa que eu tenho escrito muito e me fascina, por exemplo, qual é a conexão entre a Amazônia e o ciclo de chuvas do continente sul-americano? Os estudos se amontoam, desde os anos 1970 já se falava sobre isso, que existe uma conexão muito grande, hoje está sendo provado. Quanto mais você desmata a Amazônia, mais problemas você tem na produção de soja. No futuro, você pode ter problemas maiores na produção de milho e assim por diante. Então eu acho que a partir dessa premissa, o InfoAmazonia vai ficar cada vez mais importante, como se fosse cobrindo a bolsa de valores ambiental do mundo ou da região. É isso que eu espero. E o jornalismo em geral eu acho que vai dar muito o que falar ainda aqui no Brasil esses meios independentes, que estão sendo chamados de independentes, os novos meio: a (Agência) Publica, a Ponte (Jornalismo), a Lupa, o Gênero e Número, a Amazônia Real, a gente, talvez, quem sabe, ou outros tantos que estão surgindo, porque, eu vi isso de um jornalista chamado Dal Marcondes, vai ter uma seleção natural, claro, nem todo mundo vai conseguir sobreviver, mas essa seleção já está começando a ter uma consolidação, a Pública é uma potência hoje, ela tem umas 30 pessoas. Mas vai dar uma renovada geral na imprensa brasileira e no mundo também. No mundo já aconteceu isso, tem vários meios que tomaram a frente na audiência, na linguagem... Então, é um momento muito bom para ser jornalista, muito bom. Tudo bem que precisava ter mais dinheiro, mas tá chegando. Se você olhar para os Estados Unidos, já está chegando lá, com a história, por exemplo, do cara da Amazon ter comprado o Washington Post foi um sinal e assim por diante. Mas é um momento muito bom porque muito criativo. Uma das coisas que são mais valorizadas hoje no jornalismo é a criatividade, então é muito legal ser jornalista porque dá para inovar e a inovação é benquista, tem uma demanda por inovação no jornalismo muito grande nesse momento. Estão caindo vários paradigmas, está caindo o paradigma da competição, você tem que competir com seu colega, está caindo o paradigma de que você não precisa mostrar a metodologia, várias dessas coisas. O jornalismo de dados é na verdade é só um nome para esse grande movimento, um dos nomes. Daqui uns anos não vai mais falar “jornalismo de dados”, porque não vai dar para fazer jornalismo sem dados. Dá para fazer, claro, crônica, mas eu estou querendo dizer, se você se propõe a fazer uma matéria de dados, você vai ter que saber algumas dessas coisas que a gente estava compartilhando aqui,  Corel, Python, vai ser a prática comum. Então, bom, eu acho que vai ser uma grande diversão, o jornalismo, ainda.               


FIM 









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