• Reconfigurações Jornalísticas

data_labe: transformar dados em narrativas sobre os territórios populares

Atualizado: Mai 1

Beatriz Lisbôa e Thalita Queiroz

Dezembro de 2020


Checar, minerar dados, formar cidadãos e difundir a informação: estes são pilares do data_labe, que nasceu na favela da Maré, no Rio de Janeiro, em 2015, e teve como base estrutural a ONG Observatório das Favelas. O veículo atua para a construção de narrativas sociais e culturais relativas às periferias, não somente da Maré. Em entrevista concedida no dia 29 de outubro de 2020 ao projeto Reconfigurações Jornalística, da Universidade Federal Fluminense (UFF), Gilberto Vieira, um dos fundadores e diretor executivo do data_labe, contou a história do veículo, a rotina de trabalho e os planos de desenvolvimento do site. Natural de Brasília e formado em Comunicação - Habilitação Publicidade, Vieira hoje pensa e atua a partir da perspectiva do jornalismo. Ou seja, de certa forma passou por uma conversão profissional. Esse processo pode ser tomado como indício de que a discussão alarmista predominante há alguns anos - de que o jornalismo iria acabar diante do impacto das formas de comunicação nas mídias digitais - está ficando para trás. Bem ao contrário: estaríamos vivendo um período de redescoberta do que significa fazer jornalismo.


“A gente está num momento muito crítico do jornalismo, (...) crítico e efervescente”, afirma Vieira, que, durante sua formação ouvia com frequência o mantra de que o jornalismo estava morrendo e que as pessoas iriam apenas escrever blogs. “Na minha época, o medo era esse. Mais de dez anos depois, a gente já está entendendo que o problema não é esse”. Hoje, lidar com grandes redes monopolísticas que controlam dados e algoritmos de forma pouco transparente impõe uma série de novos desafios à profissão.


“Tem rolado um reposicionamento do campo do jornalismo, justamente por causa disso, porque a gente está lidando com novas camadas, com novas perspectivas, assim, de produção de conteúdo, sabe?”. Por exemplo, Vieira acredita que atuar em “nichos”, no campo jornalístico, pode ser uma atividade potente: “É possível falar para nicho, é possível falar sobre um grupo específico, mas em prol de alguma coisa que sejam menos catastrófica, entendeu? Em prol de uma democracia mais plural, em prol da vida das pessoas, em prol de um mundo um pouco mais feliz, em prol de comunidades mais sustentáveis”.


O veículo encontra formas de financiamento sobretudo de organizações internacionais e busca capacitação constante, para múltiplos projetos, como o CocôZap, que utiliza o Whastapp para mapear condições de saneamento na Maré, ou o podcast, que agorá passará a ser realizado por temporadas temáticas. As reportagens são pensadas a partir de pautas que levam em conta dados, sobretudo a partir de uma perspectiva de diversidade, observando questões de gênero, raça e condições sociais de vida.


Parcerias com outros veículos do mesmo perfil também fazem parte da forma de trabalho do data_labe. Durante a pandemia, o site conseguiu financiamento para uma parceria com veículos como Gênero e Número, AzMina e Énois. São veículos que de certa forma foram criados no mesmo período, nesta década, compartilham desafios semelhantes e muitas vezes se cruzam também por laço de amizade de seus profissionais. De certa forma, integram um movimento que vem se consolidando nas redes, que busca afirmar novas possibilidades para o jornalismo de qualidade, a partir dos ambientes das mídias digitais.