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Ponte Jornalismo: sem falsas equivalências na cobertura de violações dos Direitos Humanos

Atualizado: 3 de jan.



Por Natasha Mastrangelo

Dezembro de 2020


A Ponte Jornalismo foi criada em 2014, em São Paulo, como resultado do amadurecimento da trajetória de um grupo de jornalistas que se preocupava com questões de segurança pública. O site obteve reconhecimento por seu trabalho de cobertura de violações de Direitos Humanos em áreas urbanas, retratando a violência do Estado contra populações marginalizadas, com um enfoque de raça, classe e gênero.


Nesta entrevista, o editor Fausto Salvadori Filho, um dos fundadores, conta como o site foi aprimorando suas metodologias de cobertura, com a leitura detalhada dos processos judiciais para averiguar as provas disponíveis. Na seção "Prisões", que se tornou quase uma subeditoria, como diz o jornalista, o site cobre muitos casos de pessoas presas injustamente. A partir dos indícios disponíveis, os próprios jornalistas realizam averiguações e, não raramente, encontram fortes indícios de que a prisão se baseia em evidências duvidosas. Muitas pessoas acabam sendo soltas graças a esse trabalho. Segundo Salvadori, o fato de uma equipe tão pequena chegar a esse resultado decorre do fato de a investigação policial no Brasil ser muito mal feita. "Um trabalho de reportagem básico já vai ser melhor do que mais de 90% das investigações feitas no Brasil", destaca ele.


Na entrevista, o jornalista explica como a compreensão da sociedade brasileira a respeito da segurança pública se baseia praticamente toda ela em desinformação, alimentada pelo viés das coberturas realizadas pelos grandes veículos de TV e jornais de repercussão nacional. "Então, a gente criou a Ponte, inclusive, para combater essa desinformação, mostrando que é muito fácil você ser preso, porque você tem um policiamento ostensivo e não investigativo", diz ele, rebatendo, assim, a ideia de que o Brasil é o país da impunidade. Os encarceramentos são mais constantes entre negros e pobres.


A missão da Ponte, reitera ele, é amplificar "as vozes de grupos historicamente invisibilizados". Assim, a voz de quem foi alvo de racismo ou preconceito de gênero será central nas reportagens, inclusive com destaque nos títulos. Todos os lados envolvidos são ouvidos, mas a ênfase será dada a quem foi vítima da violência, como a família de um jovem assassinado pela polícia. "O método que a gente utiliza é esse: evitar as falsas equivalências e deixar clara na reportagem essa relação de poder", reitera Salvadori.


A Ponte Jornalismo é um site de jornalismo sem fins lucrativos e conta com o apoio de fundações do terceiro setor, como a Open Society, embora haja uma busca de diversificação de fontes financeiras. Em seu site, divulgam-se dados sobre as receitas e apoiadores. A entrevista foi concedida no âmbito do projeto Reconfigurações Jornalísticas, da Universidade Federal Fluminense (UFF), no auge da pandemia, no segundo semestre de 2020. 





Transcrição da entrevista com Fausto Salvadori Filho, da Ponte Jornalismo 

Coordenação Reconfigurações Jornalísticas - Profa. Rachel Bertol

Roteiro - Rachel Bertol, Natasha Mastrangelo    

Entrevista - Natasha Mastrangelo

Transcrição -  Rachel Bertol e Natasha Mastrangelo

Edição final e revisão - Rachel Bertol e Natasha Mastrangelo 


Clique aqui para acessar à transcrição da entrevista em versão PDF.



[0:11] Meu nome é Fausto Salvadori. Nome completo: Fausto Salvadori Filho. Eu me formei em 1999 na Universidade Estadual Paulista, a Unesp, campus de Bauru em Jornalismo.


[0:28] Eu queria que você falasse um pouco da sua experiência na vida universitária. O que que te motivou a fazer jornalismo, quais foram as experiências mais marcantes suas durante esse período, se você já teve contato dentro da universidade com essas pautas relacionadas a violência policial, direitos humanos?


[0:47] Eu acho que o que me levou muito a querer jornalismo era uma vontade muito grande de expandir o meu contato com outras realidades. Eu cresci em uma cidade no interior de São Paulo, de 50 mil habitantes, São José do Rio Pardo, e eu me ressentia muito da vida que eu levava, eu queria conhecer mais sobre a realidade, né. Eu era uma criança um tanto isolada, assim, passava muito tempo com livros. Por um lado, isso me deu um gosto pela narrativa, me deu um gosto pela, pela leitura, deu gosto por universos imaginários, mas a partir de um certo momento na adolescente, eu comecei, ainda encantado com as narrativas, com o poder das narrativas, eu comecei a me ressentir um pouco de ficar tanto tempo preso em imaginários e ter uma uma sede de realidade, de conhecimentos da realidade. E o jornalismo me parecia ser algo que, até por dever profissional, me obrigaria a sair dos meus mundos, dos meus mundinhos particulares e me colocaria em contato com diversas realidades que eu tinha vontade de conhecer. Então, essas motivações que levaram ao jornalismo, especialmente à reportagem. Durante muito tempo eu só me interessava pelo jornalismo pelo papel do repórter; especialmente esse repórter que tem contato com realidades diferentes do dia a dia dele. Por exemplo, eu sempre tive um gosto por cultura, mas eu de propósito não me envolvi com jornalismo cultural, porque eu achava que isso iria estimular esse meu lado evasivo e me deixar cada vez mais alienado da realidade, se eu fosse fazer jornalismo cultural, embora eu gostasse, tivesse muita afinidade com temas culturais. Então, desde cedo na faculdade, também mais tarde nas primeiras experiências profissionais, o jornalismo de cidades me atraía muito, porque eu, de todas as áreas de jornalismo, o de cidades é o que te coloca em contato mais direto com diversos tipos de realidades diferentes, classes sociais diferentes da sua, de locais... que te leva para locais da cidade diferentes, te leva para conhecer pessoas diferentes de você. Então, acho que era muito isso que eu buscava, esse conhecimento com outras realidades e, de fato, o jornalismo me levou a isso. Eu diria que pra alguém que é um rapaz branco, de classe média baixa, criado no interior de São Paulo, eu tive contato com muitas realidades que eu não teria, por conta da criação que eu tive e do ambiente em que eu fui criado. Então, alguns anos depois isso me levaria a me chocar profundamente ao conhecer o cotidiano, que é o cotidiano da maioria da população do Brasil, de miséria, de violação constante de todos os tipos de direitos humanos por conta das violências que são praticadas pelo Estado e esse choque me leva depois a me interessar pelo jornalismo, não como um fim em si mesmo, fazer jornalismo por fazer jornalismo, por fazer bons textos, escrever matérias interessantes, mas me leva eu me interessar pelo jornalismo como ferramenta de transformação, como uma arma que poderia ser usada... arma não, arma dá muito ideia de bolsonarismo, mas como uma ferramenta (risos) a ser usada para modificar essa realidade que me entristeceu muito quando eu descobri que ela existia.


[5:03] Eu ia te perguntar também sobre as suas primeiras experiências profissionais. Logo que você se formou você trabalhou nas editorias de Cidade e Polícia do jornal Agora SP, não foi? E no A Tarde?


[5:15] Na verdade, isso veio depois. Eu comecei primeiro no... já na faculdade, o primeiro emprego de repórter mesmo foi no jornal que ficava vizinho à cidade onde eu fiz a faculdade, que é Bauru, ficava na cidade de Araraquara que era a Tribuna Impressa. Trabalhei lá acho que uns, coisa de uns seis meses mais ou menos e também na editoria de cidades. Depois eu vim para São Paulo, trabalhei.. sem conhecer ninguém, assim, vim com bastante a cara e a coragem, conhecia um ou outro estudante, só colega. Trabalhei na Rádio Trianon, existe até hoje fica localizada na Avenida Paulista no prédio da Gazeta. Depois trabalhei em uma das várias iniciativas que surgiram no ano 2000 chamadas “ponto com”. Se você procurar no Google, você consegue ouvir falar da onda de “ponto com” que surgiu no ano 2000  em.. no mundo e, inclusive, no Brasil. Foi uma grande ilusão na época, se achava que a internet estava chegando e as pessoas iriam ganhar dinheiro muito rapidamente com a internet. Então foi uma grande bolha criada, surgiram vários sites... E foi muito bom porque o mercado ficou bastante aquecido e foi fácil arrumar emprego na época. Esses sites não duraram um ano, todos faliram, fecharam as portas, era uma grande burrice achar que internet naquela época daria dinheiro, porque.... Eu que trabalhava lá, não tinha internet em casa, ninguém tinha internet no Brasil naquela época, então, era uma… olhando hoje dá para ver que as pessoas se deslumbraram de maneira até ridícula, até meio caipira, assim, com uma tecnologia de fora, chegando do dia para noite, achando que isso iria mudar as coisas. Depois eu trabalhei em um Jornal da Tarde do Grupo O Estado de S. Paulo. Passei por algumas assessorias de imprensa, tive a experiência profissional que durou mais tempo como repórter até a criação da Ponte que foi como repórter do Grupo Folha de S. Paulo, do Grupo Folha, né. Inicialmente no Agora São Paulo que é o jornal impresso popular do Grupo Folha de São Paulo, e depois no também no site da Folha de S. Paulo. Na época era um pouco separado do resto do grupo, mas era o site da Folha. Depois eu passei pelo Metro que é o jornal gratuito pertencente a um grupo sueco e que existia na época em várias cidades do Brasil. Depois eu passei no concurso público e desde então eu sou jornalista concursado da Câmara Municipal de São Paulo. Inclusive, sou até hoje e ao mesmo tempo eu comecei já com uma carreira de freelances . Eu trabalhei aí em diversos veículos fazendo reportagens, teve muito na Galileu e também na Vice, algumas revistas da Editora Abril também, Globo. Então experiência profissional antes de me lançar ao empreendedorismo foi isso. Revista Adusp também foi um veículo  pequeno, mas que para minha trajetória foi bem importante, porque ali que eu comecei a me firmar como alguém que cobria Direitos Humanos. Antes disso, no Agora São Paulo, que foi onde eu tive a minha principal formação profissional, eu era repórter de polícia. E isso foi muito importante para a minha formação porque me permitiu conhecer profundamente a realidade das periferias de São Paulo, conhecer a realidade de como as polícias, o sistema, o aparelho repressivo do estado que inclui as polícias, o Ministério Público e o Judiciário atuam e me permitiu conhecer as realidades do racismo e do preconceito de classe, inclusive a partir do próprio jornal que eu trabalhava, porque ele não cobria as violências praticadas contra os mais pobres da mesma maneira como cobria as violências praticadas contra os brancos, deixando claro que o papel do racismo e do preconceito de classe que existia na realidade que eu documentava e existia também em como essa realidade era documentada, ou seja, existia nos próprios jornais que eu trabalhava. Na Revista Adusp, que é uma revista ligada à Associação de Docentes da USP, eu comecei a ter um trabalho de fazer uns freelancers muito, ainda ligado ao tema de Segurança Pública como no Agora, só que já com uma perspectiva de Direitos Humanos. E comecei já cada vez mais a conversar com colegas que tinham essa preocupação com Direitos Humanos e que sentiam que os veículos que eles trabalhavam estavam muito presos às visões racistas e visões de preconceito de classe e de gênero para fazer uma abordagem correta dos Direitos Humanos no Brasil. A gente tem uma situação que é um massacre cotidiano, uma situação de… um misto de apartheid na África do Sul com campo de concentração nazista da Segunda Guerra Mundial, mas as pessoas tratam como se a gente fosse um país democrático, com o estado de direito real, sendo que você tem populações inteiras que são submetidas a um cotidiano no que não deve nada às piores ditaduras. Já era assim, já era assim bem antes do Bolsonaro e foi assim durante os governos do PT e  algo que é estrutural e parte da realidade brasileira, embora o jornalismo ignore isso e não fale disso não deveria. Então, conversando com essas pessoas que veio a ideia de criar um veículo que falasse dos grandes problemas da Segurança Pública que atinge a maioria população, que são as violações de Direitos Humanos cometidas pelo Estado contra essa população, sempre com o enfoque muito grande em raça, classe e gênero. Surgiu aí as primeiras idéias do que viria a ser a Ponte Jornalismo.


[11:27] Eu ia te perguntar o porquê do nome, né? “Ponte”? De onde veio essa ideia? O que quer dizer isso, qual a mensagem que esse nome quer passar?


[11:38] A ponte é algo que faz ligações, né? Então, a Ponte tem a ideia de você ligar diferentes realidades, de você aproximar diferentes realidades. Porque a gente tem em um país que tem uma desigualdade social e racial tão exacerbada como no Brasil, é… são muros. Você tem todo tipo de muro, desde muros reais até muros invisíveis, porém bastante reais, digamos assim. São os muros da desigualdade social, o muro das divisões que têm nas cidades entre ricos e pobres, que é muito claro em qualquer cidade brasileira, esse tipo de divisão que existe. E esses muros que atingem a própria percepção da realidade, então as pessoas que vivem no ambiente branco e protegido não têm ideia do que se passa nas outras realidades. Então, quando você quer discutir Segurança Pública e Direitos Humanos no Brasil é muito difícil porque as pessoas estão presas a seus mundinhos e separadas por muros e preconceitos e não conseguem conversar porque uma não conhece a realidade da outra. E a Ponte surge com a missão de aproximar as realidades, contar o que acontece nos territórios e a partir daí romper com esses muros e construir pontes visando, por fim, a colaborar na sobrevivência da democracia no Brasil. A gente usava no começo a expressão colaborar na consolidação da democracia brasileira. Desde 2018 a gente trocou e está usando por “colaborar na sobrevivência da democracia brasileira”. E, assim, ponte é um símbolo muito forte. Em São Paulo, especialmente, a Ponte João Dias, ela é o símbolo da separação entre o centro expandido, privilegiado e branco, e a periferia da Zona Sul, negra e vulnerabilizada. Inclusive é mencionada na música dos Racionais: “A vida é diferente da ponte pra cá”. A ponte é também um símbolo muito forte tanto de transformação quanto das desigualdades. E também um poema do Pezão que é “nós é ponte, atravessa qualquer rio”. Então, enfim, a ponte, quando você fala de desigualdade social no Brasil é sempre um símbolo muito forte e que leva também à ideia de superação, à ideia de união, à ideia de aproximação de realidades que era algo que a gente queria passar quando escolheu o nome da Ponte.


[14:27] A Ponte foi criada em 2014. Hoje em dia, seis anos depois, existe alguma diferença muito grande entre o que se faz e o que se previa ou que se esperava naquela época? Em relação até à ampliação dos temas, das pautas, das abordagens, questões de gênero, questões de sexualidade, isso se ampliou ao longo do tempo na produção das reportagens e tudo mais?


[14:54] Tem muita diferença. Na temática eu diria que talvez nem tanto, tem alguma e eu vou falar um pouco daqui a pouco… mas eu queria falar antes de outras diferenças mais marcantes em relação a como a gente surgiu. A gente surgiu com uma proposta que era essencialmente jornalística, o que quer dizer que a gente só pensava em fazer reportagens, não tinha uma ideia muito clara de modelo de negócio, nem tinha uma ideia se a Ponte seria um negócio, inclusive. Havia até uma discussão interna sobre isso. A gente desde o começo não quis que fosse uma empresa destinada a ter lucro, a gente inclusive se mantém assim até hoje,  a gente é uma organização sem fins lucrativos. Mas aí a gente teve ideia, dúvida de se formalizar, se deveria atuar informalmente, se as pessoas deveriam ser remuneradas ou não, foram debates que dominaram a Ponte nos primeiros tempos. Porque a gente tinha uma urgência muito grande de contar as histórias, tanto que, por exemplo, a primeira reportagem da Ponte, ela foi publicada sem site. Chegou pra uma história de um jovem que tinha sido preso - ele era menor de idade, então ele foi apreendido, né? Um jovem que foi apreendido e foi levado à Fundação Casa para onde vão os menores de idade em São Paulo que são acusados de cometerem atos infracionais equivalentes à crimes e ele era inocente. No momento em que ocorreu o roubo do qual ele foi acusado, ele estava em casa e havia câmeras que podiam provar isso, porque o menino saía o tempo todo para fumar fora do apartamento dele, porque a mãe dele não gostava. Então, as câmeras do prédio mostram o tempo todo ele saindo e voltando, então tinha uma prova muito clara que o menino era inocente, mas mesmo assim ele estava preso. A mãe tinha procurado a polícia para denunciar o caso. A Polícia Militar apreendeu o menino, o policial civil manteve a versão da prisão do menino. O Ministério Público manteve a versão também e denunciou o menino e, por fim, o Judiciário acreditou na denúncia do Ministério Público e condenou o menino e ele estava preso, cumprindo pena por um crime que não tinha cometido, mesmo tendo uma prova tão clara da inocência dele. E para finalizar a mãe procurou a imprensa, procurou a TV Record que também não se interessou pela história, ou seja, todas as instituições possíveis do sistema democrático falharam com ela. As polícias, o Judiciário, o Ministério Público e a imprensa. Só quem não falhou com ela foi a Ponte que publicou essa reportagem e um dia depois de a reportagem ser publicada o menino foi solto. A reportagem foi publicada no blog que um de nós tínhamos no Estado de S. Paulo, porque não existia o site da Ponte ainda. Desde então mostrou potencial que a Ponte tinha e mostra também como a gente estava enxergando a questão da época. A gente tinha uma urgência, uma missão que a gente se incumbiu de denunciar essas histórias e tentar provocar mudanças na realidade. Ninguém pensava em como tornar viável do ponto de vista de uma instituição, de uma organização. Bom, isso foi um pensamento que dominou a Ponte nos primeiros anos. Então a Ponte tinha um  sistema horizontal, anárquico e descentralizado em que cada um publicava mais ou menos o que queria, desde que fosse aprovado e lido por um outro membro do grupo. E sempre com muita dificuldade de recursos, porque a gente não tinha - justamente, a gente não tinha dinheiro para nada e com o tempo foi ficando claro que se a gente quisesse fazer um bom jornalismo, o jornalismo demanda recursos, demanda dedicação, demanda tempo e tudo isso necessita de dinheiro, então, a gente não - uma coisa que parece óbvia - mas não seria possível fazer bom jornalismo se a gente não se profissionalizasse, não garantisse a remuneração das pessoas envolvidas. E ao mesmo tempo, houve uma dissidência de parte dos fundadores da Ponte, que tinham motivações políticas com as quais a gente não concordava e que saíram da Ponte para criar um grupo chamado Jornalistas Livres que, de maneira informal, é um grupo que apoia o PT, vê o jornalismo como uma ferramenta de apoio político ao partido e a gente não concordava com isso e justamente essas pessoas saíram para fundar algo tinha mais a ver com a visão que eles tinham de mundo e do papel do jornalismo. Então, a gente tem essa dissidência, já começa a ficar mais forte a ideia de profissionalização. E 2018 marca o ponto de virada nossa, nesse momento em que a gente... No final de 2017 a gente faz um crowdfunding, um projeto de financiamento coletivo para arrecadar recursos pra Ponte e na mesma época a gente consegue o primeiro apoio de uma fundação, no caso a Open Society,  que inclusive é apoiadora nossa até hoje. E isso permite que em 2018, a gente pela primeira vez, a gente tenha uma equipe remunerada trabalhando na Ponte, na época uma equipe formada de duas pessoas: o Arthur Stabile, que ainda está na Ponte, e a Maria Tereza Cruz, que estava na Ponte como editora até outro dia. Todo o restante da equipe atuando de maneira não remunerada, mas aqueles dois dedicados integralmente ao trabalho da Ponte. E a partir daí a gente começa a traçar o que seria o nosso modelo de negócios, que seria obtido principalmente através da remuneração via projetos para fundações e também remuneração via leitores. Inicialmente através desse financiamento coletivo no Catarse. Nisso, então, nisso a Ponte já está bem diferente do que era no começo. A gente cada vez mais vai encarando a necessidade de se profissionalizar, tornar o desafio de tornar a Ponte um veículo sustentável. Porque ele precisa ser sustentável para conseguir cumprir a missão à qual ele se obriga. Muito importante nesse momento a entrada da Maria Elisa Muntaner, a a primeira pessoa que não era jornalista a fazer parte da Ponte, tinha formação em marketing, MBA, visão de cliente, de mercado e que trouxe para a gente essa possibilidade de começar a trabalhar a gente como uma organização, a gente se formaliza, a gente começa, a gente cria uma estrutura administrativa para remunerar todas as pessoas envolvidas. E com isso a gente vai se expandindo. A gente começa a vender conteúdo, a gente atualmente vende conteúdo para o Yahoo News. Foi algo que a gente nem procurou, eles procuraram a gente pra comprar esse conteúdo. Antes disso, a gente tinha conteúdo creative commons, a gente distribuía gratuitamente para diversos veículos. O El País publicou muita coisa nossa, o UOL  publicou muita coisa nossa, outros veículos também. Com o passar do tempo a gente chegou à conclusão que esse modelo era um tanto arriscado, até meio vampirizador que a gente fazia. Que a gente tava dando de graça para outros um conteúdo pelo qual a gente poderia cobrar. Então, a gente achou que não era modelo tão sustentável continuar a fornecer de graça esse conteúdo. Hoje em dia a gente fornece conteúdo de graça apenas para veículos que não podem pagar, ou seja, veículos que são sem fins lucrativos como a gente. Esses podem continuar a publicar nosso conteúdo de graça. Nosso conteúdo é todo aberto, a gente não tem a menor intenção de fechar qualquer coisa, assim, não faz parte da nossa missão, porque a gente quer justamente levar pras pessoas realidades que elas não conhecem e deveriam conhecer, fazer pontes com essas realidades. Então não faz sentido a gente cobrar por conteúdo, a gente quer ser o mais aberto possível, mas a gente tem pensando cada vez mais em maneiras de remunerar esse conteúdo e uma delas é através da realização de capacitações, cursos, baseados nos assuntos que a gente conhece e na venda de conteúdo como a parceria que a gente tem atualmente com o Yahoo, que a gente quer fazer de maneira semelhante com outros veículos. Uma coisa, uma última novidade que entrou foi um programa de membros que surgiu de um projeto que a gente foi selecionado que se chama Velocidad. O Projeto Velocidad é uma aceleradora de veículos jornalísticos criado pelo SembraMedia e pelo ICFJ [International Center for Journalists com recursos financeiros do Luminate, que é ligado ao Pierre Omidyar. Com eles a gente trabalhou durante o tempo que a gente esteve com eles na primeira fase, a criação de um programa de membros, que é diferente do crowdfunding, porque no programa de membros é importante que a pessoa se sinta parte do projeto, que ela se sinta alguém que está construindo um projeto junto com a gente. Então, por isso, ela participa de lives exclusivas com os cofundadores da Ponte, ela participa de um grupo no WhatsApp em que ela conversa diretamente com a gente, ela vai ter acesso a fazer comentários no site que vão ser destacados em relação aos outros comentários. A ideia é que o membro, ele é parte da comunidade na Ponte que também inclui os jornalistas que fazem parte da Ponte. Então, é todo um trabalho que a gente está fazendo agora e que foi lançado há coisa de dois meses. Essa é a última novidade que a gente tá fazendo. Então, em termos de modelo de negócios hoje a gente pensa especificamente em três: tem a questão dos clientes, a questão das fundações, que ainda é responsável pela maior parte da nossa remuneração. Só que isso não é sustentável, a gente precisa sempre que uma organização nos banque por um projeto por durante um determinado tempo. Então a gente tá em busca de modelos mais sustentáveis, então as outras maneiras seriam o crowdfunding, o sistema de membros e a venda de conteúdo que o que a gente está trabalhando agora no momento. A equipe da Ponte hoje em dia tem dez pessoas, atualmente quatro são fulltime, são remuneradas e trabalham exclusivamente com a Ponte. Temos uma redação formada por três jornalistas, um editor e dois repórteres, mais a editora de audiências. Essa é a equipe dedicada fulltime à Ponte. Fora isso tem uma diretoria, que é formada pelo diretor de Redação que sou eu, pela diretora de Relacionamento e Marketing que é a Maria Elisa, o diretor de Design e Projetos Especiais que é o Antônio Junião e o André Caramante, que é Diretor também, e fora isso tem os três repórteres freelancers que colaboram com a Ponte em matérias especiais e também na cobertura de folgas e férias. Hoje em dia, quase todo mundo, não, praticamente quase todo mundo é remunerado. Não, todo mundo é remunerado. Eu sou remunerado, os outros também são, os diretores, mas não o tempo todo, mas sempre que possível, por projeto a gente é remunerado. Quer dizer, tem meses que não entra nada, tem meses que entra dinheiro de projeto e esses quatro que fazem redação são remunerados fulltime, dedicados exclusivamente à Ponte. É mais ou menos essa a estrutura que a gente tem. A  gente espera que chegue o dia em todos sejam remunerados pela Ponte trabalhando exclusivamente com a Ponte.


[27:01] Esse tipo de financiamento, ele ajuda a manter o projeto vivo, mas também acredito que seja uma forma de manter o projeto independente, né? E aí eu queria que você falasse um pouco sobre isso, assim, sobre isso, sobre a importância desse modelo de financiamento pra manter a energia fundamental, assim, do projeto.


[27:21] Tá falando do sistema de membros?


[27:23] É, de um financiamento que consiga, que vocês consigam se manter independentes, não vinculados a outros interesses que, enfim, que extrapolem o que seja o interesse de vocês.


[27:24] Assim, não dá pra dizer que a gente fica mais ou menos dependente por ter apoio da Fundação Open Society. É, qualquer pessoa que trabalha com fundação, seja a Open Society, seja a Ford, outras, pode atestar que o grau de interferências que eles têm nos conteúdos é zero. Como funcionam geralmente esses grants?  É feito, é lançado um chamamento, você se cadastra ou então, no nosso caso até, um pouco mais isso, você já existe,  já faz um nome, eles te procuram  e te convidam para fazer parte de um grant. Você tem muitas conversas no começo, muitas idas e vindas, muito cafezinho tomado. Eles querem muito conhecer você, seu projeto, como funciona, especialmente eles querem saber se você vai dar conta de ter um projeto sustentável um dia, porque no fundo o que eles querem é que você deixe de depender deles um dia. Eles querem poder dizer que eles ajudaram uma iniciativa e que depois essa iniciativa se tornou independente e existindo sozinha, sem elas, no fundo, o modelo que elas gostam é disso. Depois que você é aprovado, eles só voltam a falar com você quando você precisa mandar um relatório das suas atividades. Mas nenhum deles acompanha o que você está fazendo no dia a dia e pergunta sobre uma matéria específica, isso nunca aconteceu. E geralmente não acontece, geralmente não, não acontece com os veículos no geral. Agora, você pode dizer “Ah, mas, eles financiam veículos que têm um tipo de alinhamento com o pensamento deles”. No geral sim, claramente. Se a gente fosse um veículo que defendesse o racismo, a gente não seria financiado. Por outro lado, talvez, se a gente fosse um veículo que defendesse, sei lá, a revolução socialista armada e a tomada de poder - apesar que alguns são assim e consegue financiamento (ele ri).  Mas, enfim, com relação à independência editorial, as fundações não atrapalham, elas não interferem no conteúdo, mas a questão é que você fica sempre dependente de alguém e você não tem garantia de que quando acabar esse contrato, tudo é por contrato, tudo é por projetos, projetos com prazos definidos de começo e fim. Então, nada garante que passado o ano do projeto, que o grant vai ser renovado e você vai ter esse dinheiro com você. Então, o risco de você trabalhar com grant, com fundações é esse. Até porque a fundação não quer ser um eterno mantenedor seu, ela quer que você em algum momento passe a andar com suas próprias pernas. Então, vem daí o objetivo de ir atrás de outras formas de financiamento que sejam através de leitores, como o crowdfunding e de membros, e através da venda de conteúdos, que são os modelos que a gente tem adotado. Porque daí a gente entende que é algo com qual você pode se manter e ter a garantia de que isso vai estar disponível ali durante um bom tempo. Ao contrário do grant que pode sumir a qualquer momento. 


[30:58] Fausto, eu queria saber um pouco do dia a dia, assim, da redação, de como chegam essas pautas, porque vocês trabalham com temas muito sensíveis, né? Vocês falam de violação, de prisões indevidas, então imagino que não seja uma apuração muito fácil de se fazer. E quais os desafios desse dia a dia pra cobrir esse tipo de assunto.


[31:20] As pautas hoje em dia, e até desde o começo da Ponte, elas chegam com uma certa facilidade, porque a Ponte foi criada,.a gente tem uma mistura, assim, de classes sociais, de raças e de formações, assim, então tem gente que é da periferia, tem gente que é negra, tem gente que é branca, então a gente circula pelos territórios. Quem não é da periferia ou pelo menos tem muito contato com as periferias e, por tudo isso, as notícias chegam com bastante facilidade pra gente. Então, passados seis anos da Ponte, a gente virou uma referência na área de Direitos Humanos. Então, isso faz com que as notícias cheguem ainda mais facilmente. Quando acontece alguma violação de direitos, muitas pessoas se lembram da Ponte como o local, onde você pode denunciar essa história e essa história vai ser contada da maneira que mais respeita as pessoas envolvidas. Então, as informações chegam o tempo todo. Na verdade o mais difícil no dia a dia nosso é manter uma cobertura de hard news com a temperatura que a gente tem, porque a gente tem uma temperatura quente e a gente já discutiu muitas vezes se não seria o caso de esfriar, mas o tipo de assunto que a gente cobre, que é violação e denúncia, então é importante a gente fazer isso com agilidade e velocidade. Então, os desafios ao longo do dia a dia é mais a gente dá conta de escolher a prioridade entre todos os casos que chegam e quais a gente vai cobrir, quais a gente vai deixar de lado, com dor no coração, porque são todos assuntos importantíssimos, e fazer tudo isso sem deixar todo mundo estressado e cansado e incapaz de trabalhar no dia seguinte. Essas são as grandes dificuldades. Mas a gente tem relação com movimentos sociais,  a gente é muito próximo das Mães de Maio, a gente é muito próximo da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio, organizações LGBTs também são próximas a gente, tem policiais que também acompanham nosso trabalho e nos trazem denúncias periodicamente, advogados, ativistas de Direitos Humanos no geral. Então, o tempo todo a gente recebe notícias de pessoas interessadas e o desafio é menos de como apurar a notícia e mais como dar conta de cobrir tudo isso.


[33:42] A equipe já sofreu alguns ataques, censura até, censura vinda do próprio Judiciário, né? Eu queria saber como vocês lidam com esses acontecimentos.


[33:52] É, desde o começo a Ponte tem um corpo jurídico, no caso um escritório de advocacia, que no começo era pro bono, mas com o tempo o  serviço foi aumentando muito e a advogada falou: "Olha, não é mais possível fazer para pro bono, porque vocês estão gerando uma demanda que é insano trabalhar de graça, assim, é impossível trabalhar de graça". A gente tem mais ou menos atualmente uns 13 processos correndo, então, é bastante coisa. E é natural. Bom, a gente já sabia que se você vai falar de Direitos Humanos no Brasil e de violações de Direitos Humanos praticadas por agentes do Estado, você vai ser atacado e é natural. A gente não tinha ilusões de que isso seria diferente. Então, a gente sofre bastantes processos, tem muito processo de policial que é denunciado em alguma matéria e processa a gente. A gente já sofreu episódios, esses são mais irritantes, porque acho que são bastante injustos, de censura judicial. Por exemplo, uma vez teve uma reportagem que era uma declaração absurda falada por uma promotora num julgamento, a promotora dizia que o grupo Mães de Maio, que é um grupo formado por mães de crianças e adolescentes assassinados pela violência policial, essa promotora dizia que esse grupo era ligado a traficantes. Era um absurdo o que ela falava, ela falou isso durante um julgamento e a gente publicou o vídeo dela falando esse absurdo. E aí a Justiça... O vídeo na época fazia parte de um processo que era um processo aberto, então um processo que qualquer pessoa poderia ter acesso desde que tivesse a senha de um advogado. Logo depois que a matéria saiu, a Justiça decretou sigilo no processo e com isso alegou que esse vídeo, por fazer parte de um processo sigiloso, não poderia ser exposto e conseguiu ordem judicial para tirar o vídeo do ar. Esse tipo de decisão eu acho absurda, acho que contraria a liberdade de imprensa, mas, enfim, a gente não conseguiu reverter. A gente tentou fazer uma entrevista com pessoas presas e a entrevista foi negada, o que também é um absurdo jurídico, porque como você nega a liberdade de expressão de uma pessoa que está presa? Teve outro, no mesmo episódio a gente depois conseguiu a entrevista, porque eles mudaram de prisão, mas o juiz obrigou a gente a não mencionar o nome dos presos na reportagem. Então, esses episódios são especialmente irritantes, porque eu acho que foge de qualquer questão envolvendo a ordem democrática, são ações de limitação de liberdade de expressão mesmo, são ações ditatoriais que acontecem. E as agressões, a gente é bastante atacado nas redes sociais, tem gente xingando a gente o tempo todo, já teve porta-voz da Polícia Militar que falou que a gente era financiado pelo PCC. Tem uns ataques diretos, desde a gente ser revistado pela polícia, como se fosse bandido em manifestação. Eu mesmo ser tirado de um ônibus e ser revistado por policial também já aconteceu. Teve gente que foi agredido fisicamente, já foi preso. O Daniel, Daniel Arroio, que é nosso fotógrafo, já foi atingido por uma bala de borracha no joelho durante uma manifestação pela Polícia Militar. Há uma semana o repórter Arthur Stabile foi atingido por gás de pimenta duas vezes no rosto por um policial. Então, a gente também tem que lidar com tudo isso. Por sorte, também por estratégia, a gente não lida com nada disso sozinho. A gente busca sempre apoio de outros veículos, das organizações de classe que trabalham com a defesa dos Direitos Humanos, ou seja,  Fenaj, o Sindicato dos Jornalistas, Artigo 19, Abraji, entre outros. Então, a estratégia para lidar com ameaças e lidar com violência e lidar com tentativas de cercear o trabalho é não andar sozinho. A mensagem bem clara que tem que chegar com quem mexe com a gente é “não mexe comigo que eu não ando só”, isto é, se você mexer com a gente, você está comprando a briga com muita gente que nos apoia, que a gente sozinho pode ser pequeno, mas a gente faz parte de uma rede que se protege e que garante a força de quem está nesse projeto. 


[38:19] Além dessas dificuldades, que são bem próprias do tipo de conteúdo que vocês fazem, de lidar com Judiciário, com força policial, esses temas são bem sensíveis, e apesar de a Ponte ter seis anos, a gente tem uns fenômenos que fazem esse processo jornalístico ficar ainda mais difícil, né, principalmente depois de 2018, que é a desinformação. Fake news, desinformação.. Eu queria saber se esse fenômeno de desinformação, que se intensificou principalmente depois de  2018 — e aí, enfim, a eleição de Bolsonaro é um belo exemplo dos problemas que isso pode gerar — se isso mudou um pouco o caminho, a abordagem da Ponte, se mudou a dimensão do trabalho que se propunha a fazer lá em 2014 quando foi idealizado. O que isso alterou, assim, na filosofia, na atuação da Ponte?


[39:19] Quando o Bolsonaro foi eleito a gente pensou muito se isso iria mudar nossa maneira de agir, o quanto isso iria impactar. E cada vez mais eu tenho dúvidas até que ponto a chegada ao poder da extrema direita e do bolsonarismo modificou tanto assim as questões na área da Segurança Pública. Claro, as coisas pioraram, mas elas sempre foram bastante ruins, assim, quando você fala de Direitos Humanos, Segurança Pública e racismo e discriminação de gênero. Então, quando se fala em desinformação. Claro, ela vem aumentando, a gente vê muita mentira circulando por aí, mas na área de Segurança Pública, a desinformação é a regra. Nem é estimulada só pelas redes sociais, é estimulada pelos programas de TV que passam às seis horas da tarde em todas as cidades e na maioria das emissoras de TV -  SBT, Record, Bandeirantes, Rede TV!. Então a visão que se tem quando se fala em Segurança Pública e Direitos Humanos, ela é totalmente baseada em desinformação. Existe a visão, por exemplo, de que as leis no Brasil são brandas, de que ninguém no Brasil é punido por um crime, de que o Brasil é o país da impunidade, é muito difícil alguém ser preso no Brasil. Esse tipo de ideia é repisado o tempo todo, há anos as pessoas acreditam nelas, mesmo ignorando a evidência numérica, clara, empírica de que você tem o terceiro país do mundo em população carcerária. Como esse país que tem uma população carcerária tão grande, o país onde a população carcerária mais aumentou nos últimos anos, onde mais investiu em encarceramento em massa como nenhum outro, como que esse país pode ser, ao mesmo tempo, considerado o país da impunidade?  Um assunto que hoje em dia nem é tão forte, mas que volta e meia volta: a questão dos crimes cometidos por adolescentes, por menores de idade. Se passa uma ideia de que existe um problema terrível de adolescentes que são verdadeiros monstros, você tem milhões deles pelas ruas matando, estuprando, mutilando pessoas e que a gente precisa reduzir a maioridade penal para isso, para controlar esse problema que é terrível, o que também não corresponde com a realidade, menos de 2% da população que são internadas na Fundação Casa têm crimes graves de homicídio, por exemplo. Então, a gente o tempo todo é baseado em desinformação, quando você fala sobre drogas também. Ela foi inteira baseada em desinformação. Desde que a guerra às drogas começou, nos anos 30 nos Estados Unidos, e depois se intensificou, a partir dos anos 70, no mundo todo, com o governo Nixon e quando a ONU também adere à essa… ela foi inteira baseada em desinformação. Desinformação sobre os efeitos que as substâncias provocavam, que eram muito exagerados para que a população tivesse medo. Desinformação sobre os efeitos sociais ligados à droga. Até hoje... não tem mais nada desinformativo do que você chamar um grupo de pessoas pobres, marginalizadas e mantidas distantes de qualquer possibilidade de bem-estar de “cracolândia”. Porque quando você usa o termo “cracolândia”, você coloca no centro do problema a questão da droga e cada vez mais pesquisas têm apontado, as pesquisas do Carl Hart são muito importantes pra isso, chama atenção para o óbvio, a questão essencial ali não é a droga, é questão social, é a miséria. Porque o jovem branco de classe média usa crack, muito dificilmente ele vai morar na rua, na cracolândia, embora, eventualmente, possa acontecer, mas é exceção. A questão essencial ali é miséria. Se você chamasse de miseriolândia seria mais correto. Mas miseriolândia daria a ideia de um problema muito mais complexo a ser resolvido. Você teria de lidar com questões familiares, questões sociais, questões de integração social, mas você usa o “cracolândia” você resume tudo. Então, quando se fala em desinformação, na verdade é até difícil dizer que piorou, porque na área de Segurança Pública a desinformação é uma constante. Então, a gente criou a Ponte, inclusive, para combater essa desinformação mostrando que é muito fácil você ser preso, porque você tem um policiamento ostensivo e não investigativo que é a principal parte do policiamento que tem no Brasil é um policiamento ostensivo, que está na rua tentando ver se acha criminoso através do patrulhamento, em vez de investigando a partir de crimes, mas tentando ver se acha na rua alguém que cometeu um crime. Naturalmente, se você está simplesmente passando pela rua procurando criminoso, você vai se basear em preconceitos para deter criminosos, preconceito de raça e de classe e de todo tipo de visão de mundo do que seria um criminoso. Então, é fácil você ser preso no Brasil por causa dessa questão do policiamento ostensivo, também porque as instituições que deveriam fiscalizar não fiscalizam. O Ministério Público valida as prisões feitas pela polícia e o Judiciário valida as denúncias feitas pelo Ministério Público. Então, é o tipo de coisa que está contra a gente o tempo todo, até pra tentar combater essa ideia de que é difícil ser preso no Brasil. É difícil você ser preso se você for branco, for rico e não for do PT,  mas é fácil ser preso 


[45:05] É meio kafkaniano assim, né? O Estado ele só aparece na vida, principalmente de jovens negros, e prende sem explicação. Eu li aqui a matéria, a primeira matéria, vocês usaram o nome José para falar do menino. E é bem assim mesmo, né? Sem explicação, de repente, ele desceu pra fumar dois cigarros e de repente ele tava preso, assim, apreendido. 


[45:31] Em tese, essas instituições deveriam fiscalizar uma à outra, deveriam seguir a lógica do check and balances, dos freios e contrapesos, mas na prática não é essa lógica que ela segue, elas seguem a lógica da acomodação. Quando a vítima é uma pessoa negra, digo a vítima do sistema, não formalmente a pessoa é réu, é culpada, mas quando a vítima desse sistema é uma pessoa negra e pobre, as instituições se acomodam. Uma tenta não contrariar a outra. Se o policial disse que a pessoa é criminosa, mesmo sem nenhuma prova, a Polícia Civil entende que a versão do policial militar é verdadeira, o Ministério Público também entende que a denúncia é correta, o juiz também, então é uma lógica de acomodação e não de fiscalização, o que explica porque que tem tanto absurdo.


[46:17] Eu queria falar agora um pouco sobre redes sociais. Hoje em dia é quase impossível fazer jornalismo sem pensar em redes sociais. Dia desses eu estava vendo o Instagram da Ponte e vi que vocês tão com Telegram, estão ampliando um pouco esses canais. Eu queria saber como é a atuação da Ponte nas redes, é claro que cada rede tem sua abordagem, mas saber como funciona isso para vocês. Como que vocês usam as redes a favor do projeto. 


[46:48] A gente sempre usou as redes sociais, mas agora, há coisa de seis meses, a gente tá usando de maneira mais eficiente, mais bem pensada e trabalhada, porque a gente tem finalmente uma editora de audiências que cuida das redes sociais. Então, como você disse, cada rede tem o seu estilo. No Instagram, é muito  importante a imagem, não necessariamente bonitas imagens, mas imagens que chamem atenção, que sejam interessantes. Então, a gente trabalha o conteúdo ali com aquela dificuldade adicional de que o Instagram é uma rede fechada, ela não passa para outros sites, outros links, com exceção dos stories, nos stories aí sim é possível colocar links. A gente trabalha muito no Twitter, a informação dinâmica, a informação que está acontecendo agora. A gente tem trabalhado muito o Youtube por meio das lives. A gente começou a fazer live no Instagram, mas a gente achou que o Youtube é melhor. Primeiro porque o Youtube já é preparado para você ver a live e em seguida ela fica armazenada e você vê depois. Isso no Instagram é mais complicado. No Instagram é algo feito para você ver a live e sumir, porque, ainda que você possa salvar a live, republicar isso não é muito orgânico e não funciona muito bem dessa maneira. A gente também tem feito as lives no Youtube, usa o Twitter para fazer postagens ao mesmo tempo que a live ocorre, com trechos da live para as pessoas verem o que tá acontecendo. Então, a gente tem também uma presença forte no Facebook. Então, as redes sociais servem pra gente manter um contato constante com os nossos apoiadores, nossos membros, nossos leitores e propagar informação que a Ponte gera, aproveitando as linguagens próprias de cada mídia.    


[48:38] Eu queria te perguntar também sobre jornalismo e método. O que faz o jornalismo se diferenciar dessas outras milhões de fontes de informação que surgiram, principalmente com redes sociais. Eu acho que na época do blog também era um pouco assim, você abria sua página e você podia dar sua opinião, produzir algum tipo de conteúdo, mas acho que hoje em dia há uma confusão meio generalizada e uma falta de conhecimento sobre o que que é jornalismo. O que faz o jornalismo se diferenciar de qualquer outra forma de produzir conteúdo, de produzir informação.


[49:21] Na época do blog talvez tivesse um pouco mais essa confusão, acho que hoje é um pouco mais claro, assim, os veículos hoje digitais são veículos jornalísticos. Eu peguei a época do blog e era uma coisa engraçada que, embora, muita gente se colocasse como fazedor de conteúdo, pouquíssimas pessoas estavam gerando conteúdo próprio. É, inclusive, eu até lembro que o Renato Janine Ribeiro em um artigo comentou que um dos poucos blogs que levantou informação nova, inédita e jornalística tinha sido o meu blog, o Boteco Sujo, que levantou a história da Geisy Arruda, a menina do vestido rosa que foi vítima de assédio na Uniban. Então, uma coisa que acho que diferencia a Ponte, primeiro a apuração. A gente é um veículo jornalístico, focado em reportagem. Deveria ser o básico, mas não é todo mundo que faz isso. E a gente é centrado na apuração tradicional, rigorosa, ouvindo todas as fontes, uma reportagem investigativa que busca ir à fundo nas análises que faz. Isso diferencia um pouco a gente de talvez de umas mídias que tenham uma tendência talvez um pouco mais vinculada a um partido ou a uma determinada visão de mundo e que acha que, por isso, você não precisa apurar direito as histórias. Você apura a história só de um lado, só ouve as pessoas daquele lado, você não precisa ouvir o resto. A gente não. A gente acha que tem que fazer um trabalho de apuração tão rigoroso quanto qualquer, quanto o melhor jornalismo pode fazer. Então, não sei se chega a ser um diferencial, porque outros também fazem isso, mas onde eu acho que tem nossos diferenciais? Eu acho que a gente alia essa preocupação do rigor jornalístico com uma preocupação também com o rigor em torno da visão sobre a realidade. E que esse rigor inclui também uma atenção especial para as questões de raça, classe e gênero. Não por uma ideologia política a priori, mas por entender, inclusive como jornalista, que você não consegue documentar uma realidade bem, você não consegue apurar bem uma história, se você não olhar para essas questões, de gênero, classe e raça. Isso acho que é um diferencial nosso, ter bastante clara essa visão de gênero, classe e raça quando a gente faz uma abordagem. Então, por exemplo, a gente no geral evita uma tendência muito clara no jornalismo brasileiro de ficar em cima do muro, um certo “doisladismos” que a gente acha que não cabe nas situações extremas que a gente aborda. Se tem uma situação de violência praticada pelo Estado, não é nosso papel colocar um lado, outro lado e simplesmente fingir que eles são equivalentes. Não se pode forçar uma equivalência que na realidade não existe. Então, é deixar bem claro, houve uma violência, tem uma vítima, você tem um culpado e uma coisa muito importante para gente, uma parte da nossa missão, a gente amplifica as vozes de grupos historicamente invisibilizados. Então, em uma reportagem nossa, a voz de uma pessoa que foi vítima de violação, seja alguém que foi alvo de racismo, seja alguém que foi vítima de preconceito de gênero, seja a família de algum jovem que foi morto pela polícia, a voz dessa pessoa vai ser central na matéria. Tão importante ou até mais do que a voz do Estado, que também vai estar na matéria. A gente coloca todas, mas a gente assume que o ponto de vista de quem sofreu a violência merece ser mais destacado  do que o ponto de vista de quem praticou a violência, especialmente porque a gente está falando de algo muito desigual em termos de poderes. De um lado o Estado, com todo o aparelho repressivo que ele tem, do outro lado são as pessoas vítimas da ação do Estado. O método que a gente utiliza é esse: evitar as falsas equivalências e deixar claro na reportagem essa relação de poder. Deixar claro que há violência nas situações de opressão e oprimido. Então, não dá para colocar no mesmo pé de igualdade um branco que pratica violência e um negro que sofreu a violência. A gente tem que deixar claro, “não esse foi vítima de opressão, este está oprimindo”. Então, evitar essas falsas equivalências, dar ao cidadão o mesmo peso para a voz dele que a gente dá para a voz do Estado e deixar claro todas as relações de opressão. Por exemplo, uma coisa que a gente sempre fez na Ponte, a gente a gente racializava as coberturas. Se um jovem negro é morto pela policia, a gente deixa claro, “jovem negro foi morto pela policia”, “policial branco matou o jovem negro”, isso em título. Hoje em dia isso já está - especialmente depois do George Floyd, a imprensa brasileira começou a adotar um pouco mais isso. Mas no começo a gente foi pioneiro nisso e isso chocava as pessoas, as pessoas estranhavam e falavam “mas isso não é jornalismo, é ativismo, por que tem que mencionar a cor da pessoa no título da matéria?”. Olha, então você vai ter que discutir com o The New York Times, Washington Post e dizer que eles não fazem jornalismo, porque há décadas eles destacam a cor das pessoas envolvidas em casos de violência policial por entenderem que a questão racial é fundamental nesse debate. A questão dos métodos que a gente usa. A gente também tem todo uma metodologia. A gente usa também para cobrir casos de pessoas inocentes presas pela polícia, que virou uma espécie de subeditoria dentro da Ponte, tem pelo menos uma matéria por semana abordando um desses casos. Volta e meia a matéria influencia a ponto de fazer com que esse jovem seja libertado e inocentado. A gente fala jovem, mas já teve velho, já teve mulher, mas, assim, o padrão, o mais comum, é o jovem pobre e quase sempre negro que é vítima de acusações falsas. A gente com o tempo foi desenvolvendo uma metodologia, então o repórter, ele lê todo o processo judicial, tenta entender como a policial montou aquela história contra aquele jovem e levantando ali o que realmente é prova e o que é exposição. Então, você vai observar, por exemplo, o jovem foi preso acusado de tráfico de drogas. Quais são as provas? Drogas, tá, beleza. Quais são as testemunhas? Não tem testemunhas, foi só o policial que disse essa versão. Onde o jovem estava no momento do crime? Aí você vai atrás, entrevista a família, entrevista amigos e tenta levantar alguma prova de que o jovem estava ou não no local naquele momento. Muitas vezes nisso você tem acesso a depoimentos, a testemunhas, tem acesso a gravações, postagens de redes sociais. Aí você vai construindo e tentando entender até que ponto as provas são sólidas ou são provas meramente circunstanciais, baseadas na palavra da polícia ou, o que também é muito comum, são prisões baseadas exclusivamente em reconhecimentos. E reconhecimento é uma área muito complicada, porque o reconhecimento mal feito, ele pode facilmente levar a uma condenação e se ele foi feito mal feito uma vez, a pessoa que fez o reconhecimento mal feito, ela vai repetir essa visão ao longo de todo o processo judicial, porque há a produção de falsas memórias e tem todo uma técnica para evitar que o reconhecimento seja feito de maneira equivocada. Então, por exemplo, o próprio Código de Processo Penal recomenda que a pessoa seja colocada ao lado de outros semelhantes a ela, que nunca se faça o reconhecimento de uma pessoa sozinha. Você apresenta aquela pessoa sozinha ou uma foto dela, que volta e meia acontece, e fala “é essa?” e a pessoa “sim, é, pode ser, acho que é” ou “é!”. É muito complicado você reconhecer uma pessoa só com base numa única imagem, por isso se recomenda que você coloque várias parecidas umas com as outras. Então, você precisa observar como foi feito esse reconhecimento? E aí você vai ler no processo, vai entrevistando e aí você descobre “olha, muitas vezes o reconhecimento foi feito, porque o policial pegou uma foto do WhatsApp e mostrou pra pessoa”, “Olha, é essa?”, “É”. Aí depois a pessoa já foi com a convicção de que aquele suspeito é o culpado, hora que ele vê o suspeito algemado diante dele na frente dele na delegacia, ele só repete o que falou antes, “Ó, é o culpado”. E depois vai repetir isso de novo na fase judicial, vai dizer que é o culpado. E além de fazer esse trabalho de trabalho de reportagem, de leitura, mesmo o repórter consulta o advogado criminalista para ler o processo junto com ele e também avaliar. Então, com tudo isso a gente faz. A gente definiu uma metodologia para cobrir casos de prisões sem provas. E, olha, quase todo caso a gente que a gente vai a fundo, a família procura a gente, fala que a pessoa é inocente, a gente consegue no mínimo provas bastante fortes de que a prisão se baseia em evidências duvidosas. Nem sempre a gente consegue provas capazes de dizer “olha, a pessoa é inocente”, às vezes a gente diz mesmo, quando a gente consegue, por exemplo, um álibi claro de que a pessoa não estava ali no momento, a gente diz “olha, a pessoa foi presa por um crime que não cometeu e nem estava ali no momento do crime”. Aí você vai dizer, “olha, como é que vocês conseguem isso? uma equipe tão pequena, sem formação específica em Direto”. É que o trabalho de investigação da polícia no Brasil é tão mal feito que mesmo os repórteres sem grandes tradição como são os nossos, nossos repórteres são iniciantes e tem a vantagem de serem treinados por nós que somos um pouco mais velhos de jornalismo, que mesmo um trabalho de reportagem básico já vai ser melhor do que mais de 90% das investigações feitas no Brasil, porque elas são muito mal feitas.   


[59:15] Como fica o jornalismo, principalmente, esse jornalismo preocupado com os Direitos Humanos num momento como o nosso de polarização política e de uma associação equivocada entre Direitos Humanos e ativismos e esquerda,  como se falar de Direitos Humanos fosse uma inclinação política, já de demonstrar certa inclinação política. Como que fica assim pra você? 


[59:44] É uma pena os Direitos Humanos sejam vistos como uma questão ideológica, como uma questão de esquerda ou de direita, que não é. Inclusive, do ponto de vista histórico, tem todo um legado dos Direitos Humanos no campo do liberalismo, com a participação também da esquerda, mas, enfim a condição dos Direitos Humanos é uma condição complexa e não dá pra ser tributada exclusivamente à direita ou à esquerda. Violações de Direitos Humanos são cometidas pela esquerda e pela direita, então, enfim, é uma pena que seja colocada como algo ideológico, algo que não é. Ou pelo menos não é ideológico em um sentido tão rasteiro quanto dizer que é de direita ou de esquerda. Claro, essa polarização prejudica, mas é natural que esses grupos que chegaram ao poder queiram fazer isso, porque eles são efetivamente contra os Direitos Humanos, eles são grupos que querem querem destruir a Amazônia, são grupos que querem matar os índios, são grupos racistas e isso é bastante claro, tanto que eles demonizam os Direitos Humanos. Então, isso é  natural que ocorra vindo desses grupos. Mas é bom lembrar que violar Direitos Humanos é algo que as esquerdas também fizeram ao longo de muito tempo, considerada especificamente violência policial de racismo que é os temas principais que a gente cobre, o PT não tem muita moral para falar de nada porque não trabalhou para lidar com essa questão, especialmente a questão de violência policial, enquanto esteve no poder. A questão do racismo sim teve a questão das cotas, nesse ponto o PT atuou. Violência policial é uma questão que nenhum partido, à esquerda ou à direita, tem muita facilidade de lidar porque mesmo os partidos de esquerda que são contra a violência policial e quando chegam ao poder  não sabem como lidar com a questão das policiais militares, por exemplo. Você vê o Ceará, você vê a Bahia que tiveram governos do PT, a dificuldade que eles tiveram de lidar com a violência policial. Acabou sendo mais fácil para eles deixar a polícia matar ou até elogiar quando a polícia matasse, como fez o governador da Bahia, porque não soube como enfrentar essas questões.     


[1:01:58] Fausto,  a gente já tá se encaminhando para o fim, eu queria saber como a equipe trabalhou, funcionou, durante essa pandemia, e quais foram os projetos que surgiram, né, por conta dessa nova dinâmica, e quais são as ideias assim, paro futuro, pros próximos meses pelo menos.


[1:02:19] A influência da pandemia acabou até sendo um pouco menor do que a gente imaginava, uma influência, bom, o que elevou é que a gente deixou de ter uma sede  física, não valia a pena manter uma sede física, a gente não sabe se vai voltar a ter, eu gostaria que voltasse a ter um dia, mas por enquanto não faria sentido, porque tudo é online. A gente no começo cobriu muito a pandemia, os efeitos da pandemia nas favelas, na comunidade LGBT, os moradores de rua, mas, engraçado, que nessa época nós fomos um dos poucos veículos que a audiência caiu ao invés de aumentar. E acho que tem muito a ver com o fato de que o nosso público, as pessoas que leem a Ponte, leem a Ponte pelo diferencial que ela tem, essa cobertura de questões de violência policial, especialmente, questões de Segurança Pública, então no começo da pandemia, quando a gente abandonou um pouco essa vertente e focou muito nas consequências que a pandemia estava tendo nos grupos sociais vulnerabilizados, a gente já não atraia tantos leitores, tanta gente, porque sentiam falta dos temas em que a Ponte cobre diferente de todos os outros. Então, a gente percebeu que querer inovar muito em relação à pandemia, pelo menos no escopo de temática, não ia funcionar muito para gente. Tem sido melhor quando voltou os temas da Ponte. Foi difícil fazer, porque a gente tinha limitações claras de cobertura, eram dois repórteres e um deles tem asma e estava impossibilitado de sair de casa, algo com o qual a gente teve que lidar, por exemplo. Mas também mostrou que a gente pode fazer muita reunião online, que a gente pode ouvir muito entrevistado online também, então também mostrou novas possibilidades do fazer jornalístico. E para os próximos meses, um plano muito forte que a gente, inclusive que ganhou a fase dois do Velocidad e foi selecionado no projeto Start Up Labe do Google News Iniciative, a gente vai trabalhar muito com o programa de membros, a gente quer expandir cada vez mais esse programa de membros. A gente está trabalhando para redefinir o site, algo que talvez nem fique tão claro para o leitor, mas a gente quer fazer um site mais maleável, atualmente ele é todo baseado em Wordpress, então qualquer funcionalidade que queira mudar dá bastante trabalho pra gente. Então a gente quer fazer uma homepage que a gente consiga trabalhar com ela com mais facilidade, ter menos cara de blog e continuar na luta. Algo que gente tem feito nos últimos anos é tornar a redação mais diversificada, a gente. Ela sempre foi diversificada em termos de gênero, e ficou mais diversificada ainda porque um dos repórteres é uma pessoa trans. A gente agora tem mais pessoas negras na Ponte e a gente quer cada vez mais enfatizar isso, porque é fundamental para um veículo como o nosso, digo para qualquer veículo, mas ainda mais para o nosso, a diversidade  social e racial e de gênero estar presente na Ponte.  


[1:05:22] Como foi a experiência com as lives? Porque era um instrumento já disponível mas que depois da pandemia as lives começaram a pipocar. Houve muitas, assim, foi uma ferramenta que a galera começou a usar bastante por conta da pandemia. Como que foi a experiência para vocês?


[1:05:41] É algo que a gente está experimentando ainda. Para começar isso mostrou a possibilidade da ferramenta. A gente nunca pensou em ter um programa no Youtube, porque daria muito trabalho, teria que ter um estúdio, teria que pensar na estrutura de você deslocar um convidado até o estúdio, então a pandemia mostrou que você consegue ter programas de qualidade razoável mesmo sem ter toda essa estrutura que hoje em dia até o programa do Pedro Bial, na (TV) Globo, grava uma entrevista utilizando o Stream Yard, que é o mesmo programa que a gente usa, por exemplo. Então, para começar a pandemia, pelas deficiências que ela provocou, ela mostrou a possibilidade. Então, a gente confiando nessa possibilidade criou programas, que talvez seja a grande novidade nossa no Youtube são os programas com as lives. Tem o Papo de Rap que é o programa que o Amauri Gonzo entrevista pessoas sobre hip hop e de preferência pessoas que não são do hip hop, quer dizer, que não são cantores, né, de hip hop, são pessoas que curtem, então isso permite a gente falar de hip hop  partir de várias perspectivas. Tem o programa do Caê Vasconcelos sobre a questão LGBT que é o, como é que chama mesmo? [voz em off: Pluralidades] Pluralidades. E tem o programa da Jéssica sobre Literatura que é o … esqueci o nome do programa da Jéssica. [voz em off: Literatura de rua?] . Não, Academia Brasileira das Ruas [Academia de Literatura das Ruas]. Pra  gente tem muitas novidades, você ter programas da Ponte e ampliando nossos temas, sempre dentro do que a gente gosta, mas também para não falar só de desgraça, de morte, também falar de coisa boa, que não é Tekpix [em anúncio do produto, o "Juarez da Tekpix" dizia: "Vamos falar de coisa boa˜. O bordão virou meme], mas não ficar só na denúncia, porque também é muito negativo você também olhar todas essas questões só pelo prisma da violação. Também é importante olhar pelo prisma da possibilidade, pelo prisma da arte, pelo prisma do que pode ser transformado e do que está transformando e gerando transformação.  


[1:08:02] O outro lado da pandemia é que ela força a gente a ser criativo, então acabam surgindo boas ideias nesse momento mais difícil. Eu imagino que sejam muitas as diferenças, mas eu queria te perguntar, o que que você percebe na mudança de se trabalhar com jornalismo na web lá no início dos anos 2000 e trabalhar agora, vinte anos depois. O cenário é muito diferente, a dinâmica é muito diferente, os métodos são diferentes? Como que esse mundo se desenvolveu, para você que tá próximo dele e vive ele?


[1:08:41] Comparar com 2000? Nossa, a diferença é gigantesca. Até porque naquela época era ridículo, as pessoas não tinham internet em casa, então cê mal tinha lugar onde você podia acessar a internet. Publicar na internet era meio que falar para ninguém. Bom, duas mudanças que eu acho que foram fundamentais nesse período: os celulares, o fato de você acessar a internet de qualquer lugar, acho que isso mudou muito a relação de todo mundo com a informação. E outra transformação significativa foram as redes sociais, elas trouxeram uma capacidade de diálogo que nunca existiu. Eu fui da época do blog, por exemplo, eu fui um blogueiro de certo destaque na época e era muito curioso, porque não era fácil você emplacar uma postagem, assim, a ideia de viralizar veio depois com as redes sociais, embora a gente já tivesse um pouco das redes sociais, mas tudo ainda era muito hierarquizado. Então acho que as redes sociais e os celulares trouxeram um certo nivelamento, o que por si só é bastante interessante, porque ele quebra muitas hierarquias. O grande jornalista da (TV) Globo, com uma história, que está lá no Twitter está interagindo no pé de igualdade com outras pessoas. Isso incomoda. Então quando alguém fala “existe cultura do cancelamento”, “estão me cancelado, porque eu falei algo”, eu vejo o lado positivo que são hierarquias sendo quebradas e as pessoas sendo questionadas e tendo que prestar contas e obrigadas a sair das posições hierárquicas clássicas que elas sempre mantiveram. Eu diria que uma grande novidade em relação a 2000 é essa quebra de hierarquia em relação que existe na internet, de repente o comentário de uma pessoa comum pode viralizar e está por aí para todo mundo ver. Tem o lado negativo que também gente que espalha desinformação às vezes é muito mais visto do que merecia. A velocidade, a interação, a capacidade de levar todo tipo de informação para todo lugar aumentou muito em relação a 2000. 2000, quando eu comecei, eram os grandes jornais na internet. Os veículos eram basicamente jornais, traziam notícias, sisudas ou não, mas, enfim, mas era uma voz falando. Hoje você tem cada vez mais um diálogo, é uma grande barafunda de gente conversando. O ambiente da internet nos 2000 parecia ainda uma coisa de televisão. Alguém que estava falando e outro que estava ouvindo. Hoje com as redes sociais a gente tem muito mais uma interação, um diálogo e tudo tem pontos positivos e negativos. Um ponto negativo, claro, dessa quebra de velhas hierarquias é que, de repente sem hierarquia nenhuma, a desinformação também ganha mais espaço. Quando a voz dos cientistas e a voz das autoridades não têm mais a mesma força para dizer que a terra é plana, que a terra é redonda, de repente a terra plana ganha destaque, então é um dos riscos,  mas, por outro lado, a chance que você tem de democratizar a comunicação quando você quebra essas hierarquias também é grande.


[1:12:22] Como que o fazer jornalístico ele se adaptou a esse novo cenário, de mais informação, de mais gente falando, porque hoje em dia a gente tem diversas iniciativas de jornalismo de dados, de checagem. Como você acha que o jornalismo precisou, aquele jornalismo lá início dos anos 2000, precisou ir se adaptando a esse novo cenário para se manter, também, enquanto uma autoridade, no sentido de produção de informação?


[1:12:52] Hoje em dia tem tanta informação que uma das funções essenciais de todo jornalismo é fazer uma curadoria de informações, seja através de checagem, seja de curadoria propriamente dita como faz o Meio do Pedro Doria, por exemplo. Na Ponte a gente faz uma espécie de curadoria quando escolhe os assuntos, porque muitas vezes são assuntos que já estão por aí, mas a gente escolhe qual que a gente vai abordar ou traz histórias exclusivas também. E de repente você tem muita informação disponível, por isso que o jornalismo de dados agora ganhou essa força tão grande, porque você nunca teve tanta possibilidade de fazer tanto com dados. Eu diria que ampliou muito as possibilidades, a gente ainda não, nem… está começando a descobrir quais as possibilidades que existem hoje. Essa quantidade de gente disponível na internet postando informação, tem o risco de achar que está tudo na internet, sendo que nada substitui o jornalismo feito também feito fora da internet, nas ruas, conversando com as pessoas. Não vou dizer que o bom jornalismo tem que ir para as ruas, porque tem gente que faz bom jornalismo só com planilha, só com dados, hoje em dia tem sim, então eu diria que tem vários possíveis “bons jornalismos”. Tem o jornalismo tradicional de rua que ainda tem muito lugar e sempre vai ter. Tem o jornalismo de dados feito por nerds que gostam de planilhas que também fazem coisas sensacionais muitas vezes, produzem reportagens da melhor qualidade, tem toda a questão do debate envolvendo como trazer as questões de gênero, classe e raça para o jornalismo que é algo permanente, constante e desafiador. Então, eu diria que são mudanças o tempo todo e a gente ainda está se adaptando e quando a gente se adaptar já vai ter outra e nada para. 

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