• Reconfigurações Jornalísticas

Mídia Ninja: a credibilidade do jornalismo em disputa

Atualizado: Mar 23

Filipe Pavão e Thais Marques

Dezembro de 2020

Conjugar “ativismo” com “jornalismo” não é nada simples, mas é isso que faz - com tranquilidade - o jornalista Clayton Nobre, responsável pela organização e a produção de conteúdos nas redes sociais da Mídia NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação). Em 2013, ano que o braço comunicacional da rede Fora do Eixo surgiu, o trabalho do grupo ganhou projeção como contraponto à cobertura jornalística que veículos estabelecidos realizavam dos protestos que tomaram conta do país nas Jornadas de Junho. Desde então, a Mídia Ninja cresceu e não saiu mais do horizonte midiático brasileiro: tornou-se uma referência sobre um outro modo de fazer jornalismo, em comparação com veículos tradicionais, ou de um ativismo que se baseava, de alguma forma, em preceitos do jornalismo.


“Credibilidade” é a palavra-chave nessa questão. A Mídia Ninja se destacou captando nas ruas, muitas vezes com colaboradores, imagens dos protestos. O trabalho tinha como origem o conceito de Pós-TV, nome que davam às suas atividades audiovisuais de comunicação, ainda antes da criação da Mídia Ninja. “A imagem e o vídeo são o principal gancho que deu notoriedade para a Mídia NINJA. Muita gente a conheceu pelos 'ao vivos' que fizemos nas manifestações de rua”, lembra Clayton, que integra o Fora do Eixo desde 2008/9 e concedeu esta entrevista ao Reconfigurações Jornalísticas (pelo aplicativo Zoom) em 10 de outubro de 2020.


Na época dos protestos, logo se instaurou um debate sobre se o que faziam era jornalismo, e qual lado - o deles ou o dos veículos estabelecidos - tinha mais credibilidade. Essa questão ainda não está totalmente resolvida. “Para a gente, sempre foi [jornalismo] desde o começo, quando a gente era estudante e fazia nossos núcleos de comunicação da rede Fora do Eixo, produzindo narrativa dos festivais”, conta Clayton, que também é coordenador da frente LGBTQI+ da Mídia Ninja, a FOdA (Fora do Armário). “Por tabela, a gente entrou nesse debate sobre a credibilidade do jornalismo. Mas, na verdade, não era uma credibilidade do jornalismo, que foi um pouco do argumento que a gente colocava, era uma credibilidade de um modo de fazer jornalismo que estava realmente em crise. E essa crise não pertencia às mídias independentes, pertencia especificamente às mídias tradicionais”.


A Mídia Ninja é, atualmente, um dos cinco eixos de atuação do Fora do Eixo. Além dela, existe o banco Fora do Eixo, a Universidade Fora do Eixo e as equipes das articulações política e internacional. Em termos jornalísticos, a Mídia Ninja se apoia numa grande rede colaborativa em todo o país, proporcionando coberturas em múltiplas telas e em tempo real de grandes eventos e manifestações pelo Brasil. Além disso, sua forte atuação nas redes sociais com diferentes estéticas (vídeo, fotojornalismo, design ativismo e texto) também chama atenção. A Mídia NINJA conta hoje com com 3 milhões de seguidores no Instagram, cerca de 2,2 milhões no Facebook e 722,2 mil usuários seguindo seu perfil no Twitter. Para manter a publicação de conteúdos diários nessas redes, a Mídia NINJA prefere não adotar uma divisão tão rígida de tarefas, mas conta com uma estruturação básica que aparece muito implícita ao exercício digital: monitoramento de assuntos do momento, produção e publicação de conteúdo.


Outra peculiaridade é o fato de muitos de seus integrantes viverem em casas coletivas, uma metodologia de sobrevivência que já auxilia em sua sustentabilidade financeira, assim como o caixa coletivo mantido dentro desses espaços. Além disso, a equipe do banco busca editais, muitas vezes internacionais, para projetos específicos como a Brigada Amazônia. Há financiamento obtido em projeto de crowdfunding e por meio de organizações internacionais. As casas estão presentes em diferentes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília, onde mora Clayton Nobre, que possui graduação e mestrado em Comunicação. De Manaus, sua cidade natal, começou atuando em núcleos de teatro e produzindo atividades culturais.


A Mídia Ninja busca reforçar a sua credibilidade a partir da apuração das informações e do contato direto com o seu público. Clayton, que conta na entrevista sobre a rotina de trabalho da Mídia Ninja, não tem dúvida: “Para mim, jornalismo é poder organizar as informações. É você ter a capacidade de poder organizar as informações que estão em abundância no mundo e dar uma narrativa fiel, uma narrativa verdadeira, por mais que esta palavra possa ter uma série de problemáticas. É poder organizar essas informações em narrativa para o maior número de pessoas possíveis. Esse é um pouco do papel que todo jornalista deveria fazer”.