• Reconfigurações Jornalísticas

Mídia Ninja: a credibilidade do jornalismo em disputa

Atualizado: Jun 13

Filipe Pavão e Thais Marques

Dezembro de 2020

Conjugar “ativismo” com “jornalismo” não é nada simples, mas é isso que faz - com tranquilidade - o jornalista Clayton Nobre, responsável pela organização e a produção de conteúdos nas redes sociais da Mídia NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação). Em 2013, ano que o braço comunicacional da rede Fora do Eixo surgiu, o trabalho do grupo ganhou projeção como contraponto à cobertura jornalística que veículos estabelecidos realizavam dos protestos que tomaram conta do país nas Jornadas de Junho. Desde então, a Mídia Ninja cresceu e não saiu mais do horizonte midiático brasileiro: tornou-se uma referência sobre um outro modo de fazer jornalismo, em comparação com veículos tradicionais, ou de um ativismo que se baseava, de alguma forma, em preceitos do jornalismo.


“Credibilidade” é a palavra-chave nessa questão. A Mídia Ninja se destacou captando nas ruas, muitas vezes com colaboradores, imagens dos protestos. O trabalho tinha como origem o conceito de Pós-TV, nome que davam às suas atividades audiovisuais de comunicação, ainda antes da criação da Mídia Ninja. “A imagem e o vídeo são o principal gancho que deu notoriedade para a Mídia NINJA. Muita gente a conheceu pelos 'ao vivos' que fizemos nas manifestações de rua”, lembra Clayton, que integra o Fora do Eixo desde 2008/9 e concedeu esta entrevista ao Reconfigurações Jornalísticas (pelo aplicativo Zoom) em 10 de outubro de 2020.


Na época dos protestos, logo se instaurou um debate sobre se o que faziam era jornalismo, e qual lado - o deles ou o dos veículos estabelecidos - tinha mais credibilidade. Essa questão ainda não está totalmente resolvida. “Para a gente, sempre foi [jornalismo] desde o começo, quando a gente era estudante e fazia nossos núcleos de comunicação da rede Fora do Eixo, produzindo narrativa dos festivais”, conta Clayton, que também é coordenador da frente LGBTQI+ da Mídia Ninja, a FOdA (Fora do Armário). “Por tabela, a gente entrou nesse debate sobre a credibilidade do jornalismo. Mas, na verdade, não era uma credibilidade do jornalismo, que foi um pouco do argumento que a gente colocava, era uma credibilidade de um modo de fazer jornalismo que estava realmente em crise. E essa crise não pertencia às mídias independentes, pertencia especificamente às mídias tradicionais”.


A Mídia Ninja é, atualmente, um dos cinco eixos de atuação do Fora do Eixo. Além dela, existe o banco Fora do Eixo, a Universidade Fora do Eixo e as equipes das articulações política e internacional. Em termos jornalísticos, a Mídia Ninja se apoia numa grande rede colaborativa em todo o país, proporcionando coberturas em múltiplas telas e em tempo real de grandes eventos e manifestações pelo Brasil. Além disso, sua forte atuação nas redes sociais com diferentes estéticas (vídeo, fotojornalismo, design ativismo e texto) também chama atenção. A Mídia NINJA conta hoje com com 3 milhões de seguidores no Instagram, cerca de 2,2 milhões no Facebook e 722,2 mil usuários seguindo seu perfil no Twitter. Para manter a publicação de conteúdos diários nessas redes, a Mídia NINJA prefere não adotar uma divisão tão rígida de tarefas, mas conta com uma estruturação básica que aparece muito implícita ao exercício digital: monitoramento de assuntos do momento, produção e publicação de conteúdo.


Outra peculiaridade é o fato de muitos de seus integrantes viverem em casas coletivas, uma metodologia de sobrevivência que já auxilia em sua sustentabilidade financeira, assim como o caixa coletivo mantido dentro desses espaços. Além disso, a equipe do banco busca editais, muitas vezes internacionais, para projetos específicos como a Brigada Amazônia. Há financiamento obtido em projeto de crowdfunding e por meio de organizações internacionais. As casas estão presentes em diferentes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília, onde mora Clayton Nobre, que possui graduação e mestrado em Comunicação. De Manaus, sua cidade natal, começou atuando em núcleos de teatro e produzindo atividades culturais.


A Mídia Ninja busca reforçar a sua credibilidade a partir da apuração das informações e do contato direto com o seu público. Clayton, que conta na entrevista sobre a rotina de trabalho da Mídia Ninja, não tem dúvida: “Para mim, jornalismo é poder organizar as informações. É você ter a capacidade de poder organizar as informações que estão em abundância no mundo e dar uma narrativa fiel, uma narrativa verdadeira, por mais que esta palavra possa ter uma série de problemáticas. É poder organizar essas informações em narrativa para o maior número de pessoas possíveis. Esse é um pouco do papel que todo jornalista deveria fazer”.



Transcrição da entrevista com Clayton Nobre, da Mídia NINJA

Realizada por Filipe Pavão e Thaís Marques

Revisão da transcrição e minutagem: Rebeca Letieri e Rachel Bertol

Data da realização da entrevista: 10 de outubro de 2020


Clique aqui para acessar à transcrição da entrevista em versão PDF.


0:11 Thaís: ...Você pode começar se apresentando e nos falando sua história. De onde veio, o que estudou... Conta para a gente um pouco sobre você.


0:33 Clayton: Eu sou Clayton Nobre, sou jornalista e sou de Manaus. Eu me formei em Comunicação pela Federal do Amazonas, em 2010, se não me engano. Já tem um tempinho. Fiz mestrado na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) de 2011 a 2013, em Comunicação também. Mas a maior parte do meu trabalho em comunicação é na prática, por meio das redes Fora do Eixo e da Mídia NINJA. Comecei o envolvimento com a rede já em Manaus. Eu morava lá até 2010. E de 2010 para 2011, eu me mudei de Manaus para Belo Horizonte, onde eu comecei o trabalho com o Fora do Eixo, que é a rede que fez nascer a Mídia NINJA. Talvez a gente possa explicar isso um pouco melhor depois. Mas já me engajei ali nos projetos de comunicação e cultura e estou aí até hoje. Em 2013, fundamos a Mídia NINJA, nosso núcleo de comunicação se transformou nela. Hoje eu trabalho especialmente nos projetos de articulação de redes e de redes sociais, na função de postagens, texto... Enfim, o trabalho cotidiano de produção de conteúdo nas redes sociais da Mídia NINJA. Também faço outras coisas, mas acho que não preciso esmiuçar tudo (risos).


2:14 Filipe: Como você falou, a Mídia NINJA nasceu a partir dessas atividades do coletivo Fora do Eixo, há mais de 20 anos. Queríamos saber o momento em que você se juntou e o seu trabalho desde o início no Fora do Eixo.


2:33 Clayton: O Fora do Eixo nasceu, de 2005 para 2006, com a ideia de conectar coletivos culturais no Brasil. Não sei vocês conhecem, vou contar a história bem rapidinho para poder explicar como é que eu me insiro. Veio justamente com essa ideia provocadora de fazer com que os coletivos culturais pudessem se conectar entre eles e era uma época, ainda hoje é, mas naquela época era muito mais de efervescência desses coletivos culturais. Muita gente que produzia cultura “fora do eixo” (por isso que o nome é esse, por ser fora do Eixo Rio-São Paulo) geralmente não era conhecido no país. Então a gente falava muito que o Brasil não conhecia a produção cultural dele próprio e a gente trabalhava muito nessa missão de poder fazer narrativas que pudessem contar para o Brasil que produção cultural era essa que acontecia. Isso em cada coletivo no seu território, e a gente estava em Manaus. Lá tem essa questão muito efervescente de ser uma cidade super distante geograficamente e muito isolada geograficamente também. Então, mais do que nunca, a gente estava ali fora do eixo produzindo várias coisas em termos de cultura, que nem as pessoas da cidade mesmo conheciam. Então a gente fundou ali o coletivo… Eu não estava desde o início, entrei em 2008/2009, mas a gente fundou um coletivo chamado Coletivo Difusão, em Manaus, que começou a fazer ações nesse sentido. Eu não estou mais lá, agora moro em Brasília, mas o coletivo está em Manaus até hoje. Na época em que participei, estava ali na faculdade de Jornalismo. Todo mundo desse curso tem um pouco de frisson em querer fazer coisas para além dos muros da universidade. Os coletivos culturais tinham muito essa missão, inclusive. Muita gente era dos cursos de Comunicação e queria poder ter um lugar para produzir conteúdo que não fosse só o engajamento teórico que tinha na Universidade. E no coletivo a gente aprendia, inclusive, coisas que a própria universidade não dava conta, porque ela não estava alinhada com essa nova geração muito atuante nas redes e nas ruas. Não sei como é a realidade das universidades nesse sentido - das faculdades de comunicação, mas naquela época tinha muito isso. Enfim, o Coletivo Difusão já estava com uma situação bem bacana lá em Manaus, a gente produzia vários eventos, como o festival Até O Tucupi, que tinha diversas produções independentes de cultura da Região Norte. Em 2005/2006 o Fora do Eixo começou a se articular e o descobrimos depois, em 2009. Um pessoal dessa rede foi para Manaus e começou a circular, eles foram para nossa cidade e falaram para a gente: “Vocês não querem se conectar para além de Manaus?” Tipo, era legal ficar lá, mas era bom também se conectar em rede com outros coletivos culturais. A gente achou a ideia super legal e um pessoal nosso viajou para um congresso que o Fora do Eixo realizou em 2010, em Uberlândia, Minas Gerais. Já tinha 4 anos da rede. Eu não estava, mas o pessoal do meu coletivo foi, participou do congresso e voltou super animado; e a gente meio que oficializou nossa integração com a rede Fora do Eixo naquele ano de 2010. Desde então eu estou na rede, nunca mais fiz outra coisa que fosse fora da rede Fora do Eixo. Em 2010, quando a gente se conectou, eu fazia teatro e as principais ações que realizava eram nessa área dentro do Coletivo. Como a rede Fora do Eixo tinha um núcleo voltado para as artes cênicas, me engajei muito mais nesse núcleo, fortalecendo e fazendo várias ações. Logo depois, eu fui entrando muito mais na comunicação e até me afastei um pouco das artes cênicas. Até porque estava estudando, enfim, me formei, fiz mestrado, então eu estava muito mais engajado na comunicação. Desde então, entrei também em outros projetos. Durante algum tempo, coordenei a frente de formação, que chamamos de Universidade Fora do Eixo, mas o início mesmo da minha estrada dentro da rede foi esse.


7:53 Thaís: Hoje em dia, qual é o seu trabalho no Fora do Eixo?


7:59 Clayton: Pois é, hoje eu moro em Brasília e tem uma casa da Mídia NINJA que se chama Casa das Redes. O meu trabalho, especificamente, nos dias atuais, é a produção de conteúdo para as redes. Basicamente é isso. A gente tem uma frente que tá se fortalecendo casa vez mais, que é uma frente LGBT que se chama FOdA (Fora do Armário) - que é o nosso núcleo LGBT da Mídia NINJA e hoje eu sou a pessoa que coordena. Abrimos uma página no Instagram - que não tinha - com o nome Planeta FOdA e nos últimos dias temos feito várias ações. Ela está crescendo cada vez mais e é um projeto muito maior. Além da produção de conteúdo nas redes, fazemos outras coisas de mobilização e articulação da frente anti-lgbtfobia.


9:00 Thaís: Não existe então uma divisão de como você trabalha no Fora do Eixo e como trabalha na Mídia NINJA. É agrupado, digamos assim?


9:09 Clayton: A Mídia NINJA está dentro do Fora do Eixo, é o núcleo de comunicação dele. Tem a Universidade Fora do Eixo, uma parte de formação, digamos assim, que durante um tempo eu coordenei; o Banco Fora do Eixo, que articula as ações de sustentabilidade; e o que a gente chama da Frente, durante um tempo até a chamaram de Partido Fora do Eixo, mas que, na verdade, é nossa frente de articulação política. Além dessas, tem ainda uma frente internacional. É claro que tem pessoas que coordenam todos esses núcleos, mas eles se interligam muito entre si. Não somos uma organização, como várias outras, em que cada um tem seu núcleo e as pessoas se responsabilizam só por seu núcleo. Mês passado eu estava muito engajado nas ações da Universidade NINJA, por exemplo. A gente fundou o projeto e fez várias coisas. O pessoal da articulação está hoje muito envolvido em um projeto chamado “Candidate-se”, porque este é um ano eleitoral. Então também ficamos muito na produção de conteúdo disso pela Mídia NINJA, embora ele seja do Fora do Eixo. As ações se imbricam e se misturam muito.


10:49 Filipe: Interessante você fazer essa explicação, esclarece um pouquinho mais essa dúvida sobre a relação entre a Mídia NINJA e o Fora do Eixo. E você falou que se engaja bastante, principalmente, nessa pauta voltada ao combate à lgbtfobia. Então... vendo um perfil breve que você tem lá no site da Mídia NINJA, diz que é sobre gênero e de direitos humanos. Como é o trabalho relacionado a essas duas áreas?


11:31 Clayton: Como eu estou na coordenação da frente LGBT, por tabela a gente acaba caindo meio que na vala dos Direitos Humanos. Toda vez que tem uma pauta voltada para isso, eu sou uma das pessoas que ajuda a elaborar, a pensar politicamente. Nosso grupo aqui da Mídia NINJA é muito formado nessa esfera, já que nós somos ativistas também, né. Nossa ligação com esses temas começou desde o Coletivo Difusão em Manaus. A cultura era nosso carro-chefe e os primeiros coletivos da rede Fora do Eixo eram os que faziam festivais de música. Era nosso principal ativo... e todas as outras coisas eram secundárias. No decorrer da história da rede Fora do Eixo, a partir do momento em que nos engajamos mais – participamos dos fóruns e conselhos de cultura – nos vemos mais ativistas, apesar disso ser um palavrão em 2005/2006... Hoje é muito fácil falar, mas naquela época era algo que remetia a partido político. Só as pessoas que eram ligadas a movimentos estudantis e outras mobilizações que se chamavam assim. A gente já era e não sabia. E daí, cada vez mais que a gente foi ampliando esse leque, a rede foi crescendo, pessoas de outras áreas começaram a aparecer. O pessoal do cinema, artes cênicas, audiovisual e também quem não era tão ligado à cultura como o pessoal do meio ambiente, o pessoal ligado à pauta antirracista. A gente já estava com uns 200 coletivos conectados em 2012, por exemplo. Surge a ideia de aproveitar um pouco dessa rede e a gente insere uma pauta antirracista também. Isso começou em 2011, quando decidimos invadir o eixo para mostrar ao Brasil essa pauta que ele não conhecia. Precisávamos ir para lá, foi uma virada na nossa história. Nós fundamos uma casa em São Paulo, levamos os artistas com os quais começamos a articular, fizemos eventos, entre outras ações. Depois começamos a nos aliar com os movimentos de cultura paulistanos também e nos envolvemos politicamente com um monte de coisas. Íamos muito para as ruas fazer transmissão ao vivo dos festivais de música. Só que, naquele momento, a gente começou a ir para as ruas ver a possibilidade também de fazer transmissões ao vivo de outros movimentos, e era muito importante dar essas narrativas. Por exemplo, a Marcha da Maconha, a Marcha da Liberdade, que foi o primeiro movimento de rua transmitido ao vivo por nós que não era de um festival de música. Com o tempo, passamos a ligar outras pautas à nossa pauta da cultura. Então puxamos a frente LGBT, eu estava na época em que a montamos e entrei um pouco nessa esfera da defesa contra LGBTfobia dentro da rede.


15:43 Thaís: Você já chegou a comentar um pouco sobre o seu trabalho na Mídia NINJA. Mas como é sua rotina, o seu dia a dia lá dentro? E também, algo mudou agora, neste período de pandemia?


16:02 Clayton: As pessoas que atuam na Mídia NINJA, pra resumir bem, se dividem em dois grupos. Há os colaboradores, que são mais de 2.000 pessoas. Aliás, eu nem sei quantas são exatamente. A gente fala mais de 2.000 mas, se for contar, deve ter muito mais. São pessoas que se inscrevem nos editais e nas chamadas que realizamos para as coberturas colaborativas, e que produzem conteúdo junto com a gente. Os colaboradores estão em várias cidades do Brasil querendo contar narrativas que acontecem na sua comunidade e veem na Mídia NINJA uma possibilidade de fazer com que essa narrativa ganhe uma difusão muito maior, pela notoriedade que a rede ganhou de uns tempos para cá. E tem as pessoas que são de dedicação exclusiva à Mídia NINJA… mais ou menos umas 50. Moramos em casas coletivas, então durante 24 horas do meu dia eu estou atuando aqui. A gente não tem uma separação entre vida e trabalho, por exemplo. Aqui em Brasília somos 17 pessoas morando juntas, incluindo crianças. Então o nosso engajamento faz parte da nossa vida mesmo. Basicamente todo meu trabalho durante todo o dia é na produção de conteúdo das redes, porque demanda uma disciplina bastante contundente... Se vocês forem ver a timeline da Mídia NINJA, a gente publica mais ou menos 40 postagens por dia, o que é uma coisa meio atípica se for comparar com outras mídias sociais. A Folha de S. Paulo, que é quem mais produz, faz 14 postagens por dia... Realizamos diariamente uma reunião de pauta da nossa equipe de redes (de umas seis pessoas) que debate um pouco do que será levado para o dia seguinte. Às vezes a gente até vai desenvolvendo na noite anterior, mas a ideia é que tenhamos pelo menos umas 10 pautas preparadas para produzir e publicar até o dia seguinte. Para quem trabalha com redes sociais, sabe muito bem que a pauta principal mesmo é o calor do momento. É acordar, produzir conteúdo e ficar ligado no que está acontecendo para gente poder fazer e postar. No nosso trabalho não tem pessoas responsáveis, mas a atuação de redes sociais basicamente é Radar, que é ir nos portais e saber o que está acontecendo no mundo. Vamos ao Twitter, noticiários e fazemos contato com os nossos colaboradores por meio dos milhares de chats no Telegram... Houve uma época em que todo dia ficávamos lá perguntando: “Gente, alguém tem pauta?” Até paramos um pouco com isso para não ficar insistindo, mas também é uma forma de saber o que está acontecendo. Além disso, tem a produção de conteúdo, que são as pessoas que aproveitam os temas do radar e de outras origens para desenvolver as postagens. Algo como hoje que, por exemplo, é um dia de combate à violência contra mulher. Então é bacana procurar pautas, conteúdos que sejam relevantes para publicar sobre esse tema. Amazônia também, é um tema que sempre está em voga. Outro exemplo é o de que o STF decidiu perdoar o Sales - isso tá acontecendo hoje - por sua fala sobre “passar a boiada”. E tem quem faz a postagem, que já é uma terceira pessoa. Ela é responsável por pegar aquele conteúdo, dar uma revisão e postar nas redes. Então, são três caminhos que a gente segue, que basicamente separam um pouco a nossa produção cotidiana nas redes. A pandemia não mudou muito disso, até porque a gente já estava, de certa forma, no exercício do home office desde a implantação das Casas Fora do Eixo. Não temos uma redação. Estamos até hoje numa quarentena rigorosa entre nós da Mídia NINJA, sabemos que é muito importante cuidar dos nossos. Além de noticiar a importância das pessoas se cuidarem e ficarem em casa, também adotamos a quarentena enquanto uma política nossa para que a pandemia não traga mais prejuízo para o mundo.


23:08 Filipe: 2013, quando surge o Mídia NINJA, pode ser considerado ainda o grande momento de virada do trabalho de vocês ou, desde então - nos últimos sete anos, houve muitas outras “viradas” importantes, também relacionadas ao âmbito político, que contribuíram para a afirmação do trabalho midiático que realizam?


23:33 Clayton: Todo ano é muito atípico. É óbvio que 2013 foi muito importante, porque foi quando a Mídia NINJA nasceu, e já nasceu ganhando notoriedade. No final de 2012, a gente já sabia que 2013 seria um ano de muita efervescência, de uma ebulição de movimentos muito grande. Fizemos um evento em São Paulo, inclusive, chamado “Preliminares: 2013 vai ser f***”, então já estávamos nos preparando para o ano de 2013. Com todas as jornadas de movimentos de rua que tiveram, foi um período que a gente pode avaliar como um grande ano para a Mídia NINJA, mas é claro que tiveram vários outros acontecimentos. Quando teve a Copa do Mundo foi um outro momento em que a Mídia NINJA se viu com a pauta do movimento de rua muito presente. Anos eleitorais, pra gente, são muito atípicos também, por conta da movimentação que a gente faz. Por exemplo, nas últimas eleições para presidente a Mídia NINJA decidiu encampar uma campanha, aquilo que foi a campanha por Boulos e Sônia. Também foi uma virada histórica, o primeiro momento que a gente entra numa campanha de fato para presidente. Não que anos anteriores a gente também não entrasse, mas dessa vez foi para atuar junto, inclusive ajudar a articular politicamente a construção dessa candidatura. Mas, enfim, a gente teve várias histórias assim, na verdade. O golpe contra Dilma, em 2016, muita gente - inclusive alguns dos nossos - falam que foi um dos principais ativos de trabalho, de articulação de comunicação que a Mídia NINJA fez. Porque foi um momento em que a gente decidiu que não tinha coisa mais importante para fazer do que defender a democracia. A gente parou tudo para para atuar contra o golpe de 2016 e produzir conteúdo, articular, estar lá no Congresso. Todas as nossas equipes se voltaram para isso. Foi um outro salto que a gente deu em termos de experiência.


26:42 Thaís: Esse perfil da Mídia NINJA, de pautar assuntos que são importantes para a sociedade, e o fato de ter surgido no ambiente virtual sendo uma rede colaborativa apontam para certa espontaneidade na sua criação e desenvolvimento. Então, por exemplo, o site veio depois que a Mídia NINJA já era conhecida, já tinha um nome. Você acha que esse fenômeno, de surgir sem um projeto editorial, ao contrário do que acontece com a mídia tradicional normalmente, é uma característica dos veículos que são como a Mídia NINJA, que representam esse tipo de movimento, ou não?


27:32 Clayton: Não necessariamente por termos feito o site logo depois da Mídia NINJA já ter nascido, que não tenhamos um projeto editorial. Mas, de fato, é uma característica muito nossa, entrar no carro com ele andando. Isso acontece muito por conta do perfil da nossa geração, que é um pouco assim para quem fazia os coletivos culturais naquela época. Então a gente se compara mais com esses coletivos, em termos de produção e trabalho, do que com a característica mais formal dos veículos de comunicação. Eu trabalhei numa redação de jornal durante uma semana e já nem quis mais. Iniciei um período de teste, mas não passei. Não conheço direito como funciona a organização de uma redação de jornal, mas a gente sabe que tem um modus operandi ali muito diferente das mídias mais alternativas, como a gente chama, né. E as mídias alternativas, por si só, também têm um modus operandi que é muito diferente entre elas mesmas. A gente trabalha de maneira muito distinta da Ponte, Jornalistas Livres, Nexo... Alguns são muito parecidos com redações de jornais, mas a gente sabe que são muito diferentes entre si, os trabalhos das mídias alternativas/independentes. Então eu não sei se seria por a gente não tem um projeto editorial, porque até tem, se for analisar, de fato. Quando a Mídia NINJA nasceu, a gente não tinha um site mais por questões logísticas e de adaptação do nosso trabalho. Já queríamos desde o começo ter canais nas principais redes, um ter site, igual a todos os outros jornais... Mas não quer dizer que a gente não faça projetos e que a gente não tenha uma linha editorial. Nossa linha editorial é um pouco da pauta que a gente defende como a anti-lgbtfobia, antirracista, contra a violência contra as mulheres. E vemos quais são os acontecimentos cotidianos, com a pauta da Amazônia, dos Direitos Humanos, pela alimentação saudável... Então são todos os conteúdos que a gente sabe que são importantes a gente narrar. A principal função da Mídia NINJA nesse sentido é dar narrativa às informações e aos conteúdos que estão espalhados no mundo, e que muitas vezes a mídia tradicional não tem interesse político na sua difusão, em organizar e fornecê-las para o maior número de pessoas possível. A gente procura nem se comparar muito com as mídias tradicionais por conta disso, porque são trabalhos que estruturalmente e organizacionalmente são muito distintos... Mas não quer dizer que é bagunça! Não estou falando nem que você quis dizer isso, mas é que muita gente fala essas coisas sobre as mídias mais alternativas. Têm muitas, inclusive, que são super organizadas, e a Mídia NINJA é uma dessas. Temos casas que tem gente morando e planejando suas funções.


31:30 Filipe: A gente estava falando dessa estrutura diferenciada de projetos nativamente digitais da grande imprensa tradicional “de redação”, vocês fazem ações midiáticas muito distintas. Por exemplo, no uso das redes sociais, como você falou antes, são quase 40 postagens. Esse é um modo de trabalho muito diferente. E não só nas redes em si, mas por ter uma casa da Mídia NINJA, um espaço físico para eventos culturais. Essa diferença da Mídia NINJA, desses veículos nativamente digitais da grande mídia, se reflete nessas ações que vocês fazem?


32:14 Clayton: Claro. Isso reflete organicamente, 100% mesmo. Porque a nossa história começa a partir dos coletivos culturais, como eu estava falando. Eu não sei se existem, por exemplo, outras mídias, organizações ou núcleos de comunicação que tenham nascido a partir da organização de coletivos culturais e de casas coletivas. Inclusive, eu já vi muita gente que trabalha com comunicação com essa ideia de montar um espaço, mas nunca morar junto e conviver com aquilo. Para a gente, o ativismo não é uma condição que a pessoa tem que se dedicar durante 10% do seu tempo. Ou você é ativista ou não é. Um pouco desse trabalho que veio do DNA da rede, de poder morar junto - de conviver, trocar colaborativamente e que começou em 2005/2006 - foi refletir diretamente no trabalho que a Mídia NINJA faz hoje. É óbvio que se a gente não estivesse assim, talvez não pudesse produzir as 40 postagens por dia, de fato.


33:44 Thaís: Agora falando sobre o audiovisual, porque a Pós TV é o embrião da Mídia NINJA, depois ela se constitui melhor e meio que vira a Mídia NINJA. Hoje em dia vocês têm um trabalho no YouTube, que é a TV NINJA. Você poderia fazer um histórico desde quando surgiu a Pós TV até agora, com esse projeto atual no YouTube, e como que está sendo essa cobertura por meio de vídeos de vocês, essa participação no YouTube?


34:26 Clayton: A Pós TV foi um projeto do núcleo audiovisual da rede Fora do Eixo, e ainda temos um grupo para isso. Até porque a imagem e o vídeo são o principal gancho que deu notoriedade para a Mídia NINJA. Muita gente a conheceu pelos “ao vivos” que fizemos nas manifestações de rua. A ideia (da Pós TV) era a gente dar contextualização imagética, de vídeo, para as narrativas que estava produzindo. Então não era só ir para as redes… Cobríamos cultura, principalmente, como nos festivais em que fazíamos transmissões e nos próprios vídeos que produzíamos. Lá em São Paulo, quase todo dia a gente fazia programas ao vivo. Cláudio Prado, por exemplo, tinha um programa ali na Casa. A gente o transmitia na nossa Pós TV, era veiculado pelo Facebook e os canais que a gente tinha à disposição na época. Todos os projetos audiovisuais, por tabela, eram projetos que entravam nesse programa que a gente chamava de Pós TV, né. Eu adoro esse nome, mas a gente nunca mais usou porque quando a Mídia NINJA nasceu, o nome NINJA ganhou uma notoriedade muito grande. Muita gente o conhece mais do que a própria rede Fora do Eixo, que tem uma história mais longa e é muito maior em termos de organização. Então a Mídia NINJA hoje, com dois milhões e setecentos só no Instagram, já tem uma notoriedade muito grande e é uma marca muito fortalecida. Não foi um momento em que a gente falou de mudar de Pós TV para Mídia NINJA. Organicamente, todos os projetos audiovisuais que estávamos desenvolvendo passaram a ser aglutinados na Mídia NINJA depois que ela nasceu. Aí a TV NINJA começou, hoje está bombando e já tem um canal próprio lá no YouTube. Todos os projetos audiovisuais, que antes eram da Pós TV porque estavam aglutinados diretamente à rede Fora do Eixo, hoje falamos que é da TV NINJA… Ela é como se fosse o programa de televisão da Mídia NINJA, em resumo, de fato. Mas claro, não como os convencionais. A gente formula o conteúdo, faz vídeos e deixa disponíveis no nosso canal. Tem toda uma equipe que faz a edição, a cobertura colaborativa dos eventos e produz conteúdo audiovisual. Vários produtos que fazemos são transferidos por esse pessoal num videozinho ali para poder ser publicizado. É um trabalho bem bacana que eles têm feito.


38:04 Filipe: Pegando esse gancho sobre a equipe, a próxima pergunta é sobre múltiplas telas. A Mídia NINJA ganha notoriedade também com o fato de você poder acompanhar protestos em várias telas diferentes, tendo colaboradores no Rio, São Paulo e em cidades que não são capitais. Como são divididas as equipes para receber essas reportagens, editá-las, postá-las, além de fotos e vídeos dos protestos?


38:34 Clayton: Tem muito trabalho do nosso cotidiano da Mídia NINJA com uma equipe que se estrutura a partir das áreas de atuação da comunicação. A gente tenta refleti-las quando faz uma cobertura ao vivo. Precisamos de pessoas de foto, que vai para aquele ato para poder produzir imagem em foto; vídeo, que vai com a intenção de produzir conteúdo audiovisual; e texto, que basicamente - em quase todas as coberturas, o pessoal que produz conteúdos de texto é o mesmo que faz as postagens, ou seja, a mesma equipe de redação e de redes. Mas em termos de organização, a gente faz a separação entre redação e redes sociais. E temos também a equipe de design. Tem muito conteúdo que é mais legal ter um designer para fazer com que aquela informação seja, de fato, explicada…


40:10 Thaís: Nessas coberturas vocês contam com a ajuda de colaboradores. Essa é até uma das características da Mídia NINJA. Existe um núcleo próprio de vocês de equipamentos para a realização dessas coberturas em vídeo hoje em dia?


40:27 Clayton: A gente tem a nossa equipe da Mídia NINJA, que é o pessoal que mora nas casas, que é dedicação exclusiva da Mídia NINJA, tem equipe do audiovisual dentro da nossa redação, e tem a equipe colaborativa. Sempre que entra alguma pauta, nós pedimos a eles. Este ano é um ano em que não temos ativado muitos colaboradores - até respondendo à pergunta que você tinha feito antes - por conta do processo de pandemia que vivemos. Então, nunca mais no chat, por exemplo, nós fomos lá pedir para as pessoas fazerem cobertura junto com a gente nas ruas, apesar que já tem muita coisa acontecendo nas ruas. Em momentos muito efervescentes, de movimentação de rua, a gente sempre mobiliza uma equipe de cobertura, mesmo que já tenha uma da Mídia NINJA. Porque achamos que é importante aglutinar pessoas e fazer esse processo de formação. Para a gente é essencial. Quanto mais pessoas se formando nesse processo que a Mídia NINJA também aprendeu, que é de ir nas ruas e poder fazer cobertura, melhor.


41:41 Filipe: A Mídia NINJA ganhou notoriedade justamente por ter uma rede de colaboradores. Além do formulário que está lá no site, existem outras oportunidades de entrada para quem colaborar com a Mídia NINJA?


42:02 Clayton: Têm várias, na verdade, porque cada oportunidade que a gente lança, a gente faz chamadas específicas. Por exemplo, na “FOD*” - nossa frente LGBT, a gente ajudou a produzir um festival de cinema de filmes produzidos por pessoas trans, o Festival AudioTransVisual. Como era uma produção que a gente estava fazendo em parceria, a gente fez uma chamada para cobertura colaborativa e fez um formulário específico, uma chamada específica. Algumas coberturas... principalmente as coberturas mais especiais, a gente faz chamadas nos nossos veículos para as pessoas se inscreverem e participarem da cobertura junto com a gente. E tem as próprias redes que a gente faz. Por exemplo, a rede de Estudantes NINJA. Em algum momento do ano passado, em 2019, teve toda a efervescência do movimento estudantil indo para as ruas contra o corte de verbas para educação, teve o 13M e o 15M, que foram momentos de um alcance muito grande e de aglutinação de estudantes nas ruas. A gente aproveitou a oportunidade e fez uma chamada. Foi só um story no Instagram com uma pergunta “você quer fazer parte de uma rede de estudantes da Mídia NINJA? Se sim, arraste aqui”. Naquele “arraste aqui” foram mais de 3000 pessoas que preencheram o formulário para participar da rede de Estudantes NINJA. Todas elas receberam um e-mail depois para poder entrar no chat do Telegram, que hoje está com umas umas 300 pessoas participando. A gente vai lançando várias oportunidades. A gente lançou a nossa frente NINJA Ambiental, com uma chamada para as pessoas que queriam fazer parte dela. Enfim, desde os momentos maiores que são esses de “quer fazer parte da nossa rede?”, até “quer fazer parte da nossa cobertura colaborativa?”, a gente chama para as pessoas poderem se inscrever e participar junto com a gente. O maior deles é esse que você viu lá no site. A gente percebeu que tinha uma necessidade de ter um formulário único para aquelas pessoas que aparecem no inbox e falam que querem fazer parte, não por conta de algum projeto, chamada ou cobertura específica, mas sim porque querem fazer parte. Para essas pessoas, tem esse link único no nosso site, que é o SEJA NINJA, para as pessoas poderem se inscrever lá, e, em algum momento, a gente entrar em contato com elas. Por exemplo, se a gente for para Niterói, que a gente fez muito 2018, a gente vai acionar as pessoas que se inscreveram neste formulário SEJA NINJA. Se tem 50 pessoas de Niterói que se inscreveram, elas vão receber uma mensagem no e-mail ou no WhatsApp para falar que a Mídia NINJA vai realizar uma ação ali, como uma reunião aberta, uma oficina. É um contato que a gente tem com as pessoas que querem colaborar com a gente.


46:06 Thaís: É muito bom quando um veículo usa o crowdsourcing porque pode ter um alcance maior e ter a participação de mais pessoas... Mas também tem um lado negativo que é o controle de saber se as informações estão corretas ou não. A gente queria saber se há alguma prática, estabelecida pela Mídia NINJA, de checagem das informações que chegam e são veiculadas.


46:35 Clayton: A gente não tem nenhuma prática que seja… muito tecnológica, digamos. A abundância de informações é tão grande e a nossa experiência no acesso a essas informações também já é tão grande que quando as informações chegam, a gente já tem um filtro nosso que a gente consegue encarar as Fake News. Tem muita notícia que chega no inbox e que tem vários sintomas de que é uma notícia que precisa ser melhor apurada. A gente tem como metodologia um protocolo nosso de que toda informação precisa ser filtrada, precisa ser apurada e a gente faz isso como um protocolo nosso - rígido de fato. E vai desde consultar as pessoas que são fontes daquela informação. Muitas vezes a gente consulta diretamente… Se um médico falou, a gente vai atrás aquele médico para saber se ele falou aquilo mesmo, a gente vai atrás das outras das outras fontes ou dos outros veículos que deram aquela notícia, que é uma coisa que todos os veículos de comunicação fazem, uma coisa que é super fácil de fazer, inclusive, ver outras fontes que deram aquela notícia e se são fontes confiáveis também. E o que é muito legal entre os meios de comunicação alternativos e independentes, que é o diálogo que a gente faz entre nós. É uma coisa muito diferente dos veículos de comunicação das grandes corporações. Por exemplo, a Globo não vai conversar com o Estadão, ou não vai conversar com a Veja, com o SBT, com o R7, com o UOL para saber: “gente, essas notícias aqui vocês receberam? Ela é verdadeira? Vocês vão noticiar?” Isso não acontece entre as mídias tradicionais, mas entre as mídias alternativas acontece muito esse diálogo que a gente produz entre nós. Por exemplo, a gente tem um trabalho de atuação no Congresso, aqui em Brasília, e todas as mídias independentes que atuam no Congresso tem um chat no Telegram para poder fazer essa filtragem de conteúdo, essa apuração. O pessoal do Brasil de Fato, por exemplo, recebeu uma informação... Se fosse uma mídia tradicional, ela ia querer dar o furo: “recebi a informação, é minha, então, vou querer furar”. As mídias alternativas não têm essa preocupação. A preocupação das alternativas é fazer com que aquela informação - se ela for verdadeira - alcance o maior número de pessoas possíveis, não é dar o furo. Existe esse trabalho colaborativo entre as mídias alternativas, de a gente poder conversar entre nós e fazer com que o trabalho seja multiplicado. A partir do momento que a gente conversa entre nós, a nossa função se multiplica também porque pode ter uma pessoa ali do Brasil de Fato que esteja sozinha, por exemplo, que se ela se aliar numa rede que tem várias outras pessoas colaborando, que tem 3 mil pessoas ali engajadas, vai ser mais fácil fazer com que a informação seja melhor apurada. Se chegar uma informação do Maranhão e eu tenho uma rede NINJA Nordeste com umas 20 pessoas do Maranhão, elas podem me ajudar a fazer com que a informação seja apurada por meio dos próprios colaboradores locais que vão trabalhar com a gente.


50:32 Thaís: Você disse que vocês já conseguem observar que aquela informação não é correta. Teria algum padrão de características que você poderia pensar assim que mostrasse essa desconfiança?


50:53 Clayton: Eu lembro que quando a gente atuou nas campanhas de 2018, que foi um momento em que as Fake News dominaram o cenário político, a gente até fez alguns protocolos de como avaliar que a notícia é falsa. São coisas básicas. Se chegou do WhatsApp, já é suspeito, porque geralmente as pessoas mandam pelo WhatsApp sem nem saber de onde é que ela veio. Se a informação tem fonte anônima ou uma pessoa que não quis se identificar, para a gente é muito suspeito. Não é uma coisa que a gente vai publicar na hora, por conta disso. Tem várias outras coisas. Esses foram sintomas, digamos, que eu lembrei agora, mas existem vários outros. A nossa experiência no fazer jornalístico, no trabalho de comunicação também ajuda um pouco a gente poder ver uma informação e já sentir o “time”, sentir se é uma informação que parece ser Fake News ou não.


52:25 Filipe: Nos últimos anos o Facebook e o Instagram vem aprimorando serviços para transmissão de vídeos, com mais recursos facilitando a transmissão ao vivo. Como vocês planejam as coberturas em múltiplas telas tendo em conta esses recursos novos que são aprimorados por essas redes sociais?


52:43 Clayton: Um critério que a gente utiliza muito é para onde vai o público da Mídia NINJA, né. Hoje está todo mundo vendo as lives no Instagram, mas vai ter um momento que o pessoal vai esquecer as lives no Instagram e vai começar a ver as lives do Twitch, por exemplo. Não é que a gente segue a tendência, mas é porque a gente quer fazer com que nossa informação chegue ao público da Mídia NINJA. Por consequência, a gente vai seguindo o público da Mídia NINJA para onde ele for. Quando a Mídia NINJA nasceu, o boom eram as transmissões ao vivo no Facebook. Hoje já saiu um pouco da moda, apesar de que se a gente faz uma transmissão ao vivo no Facebook, ainda vai ter muita gente ali acessando. Mas, naquela época, em 2013, a transmissão no Facebook era o grande canal que as pessoas usavam para poder saber o que estava acontecendo nas manifestações. A gente segue a tendência por conta disso. É claro que a gente segue a tendência com olhar político que é necessário ter quando a gente utiliza essas ferramentas. A gente sabe que são de grandes corporações, a gente tem ciência de tudo isso, de quem tem o domínio dessas redes, mas a gente utiliza trabalhando com essas contradições que o próprio movimento e as próprias redes de comunicação de mídia independente utilizam, mas porque a gente quer muito seguir o público da Mídia NINJA. A gente quer contar nossas narrativas para o maior número de pessoas possíveis. E para isso, a gente quer saber para onde elas vão. Pode ter um momento que as pessoas vão lá para live do Twitter, que poucas pessoas sabem que existe. A gente não o utiliza justamente porque as pessoas não utilizam. A gente segue a tendência das pessoas que seguem a Mídia NINJA especificamente.


55:13 Filipe: Você falou dos grandes conglomerados que dominam essas redes sociais... A gente sabe que eles enfrentam graves crises de credibilidade e acusações, como no caso da Cambridge Analytica, de manipular os dados dos usuários. Vocês acreditam que hoje é mais difícil trabalhar com essas redes do que em 2013? E sentem que há mecanismos de vigilância e falta de transparência?


55:44 Clayton: … A nossa geração ainda está nesse período em que está utilizando essas mídias e descobrindo, no decorrer do nosso próprio uso, as controvérsias e as contradições que a gente acaba caindo por conta de usá-las. Por exemplo, esses perigos todos que são colocados estão sendo contados nesses dez últimos anos. Então, nem teria, pelo menos na minha opinião, uma diferença muito grande de 2013 para cá. É claro que no decorrer dos anos a gente vai recebendo cada vez mais informação de mau uso dos dados que são disponibilizados nessas redes, mas, enfim, uma política nossa é sempre atuar nessas redes tendo ciência política do uso que a gente faz dela. E a gente utiliza justamente pra gente poder hackeá-las também. Para dar um exemplo de caso, na campanha de 2012 em São Paulo, que foi um dos primeiros momentos que a gente acampou uma campanha política, a gente fez um movimento junto com os grupos culturais de São Paulo que foi o “Amor SIM Russomanno NÃO”, que a gente não estava querendo que o Russomanno ganhasse as eleições, inclusive, está aí o perigo de novo. A gente fez uma grande campanha memética, a gente entrou na onda da guerra dos memes na internet. Para a gente essa foi uma nova forma de fazer política muito interessante na época pra essa juventude que se diferenciava muito de uma forma mais tradicional de fazer política dos partidos políticos. A gente entrou nessa onda e a gente fez no Facebook um evento para todo mundo ir de rosa no dia 5 de outubro na Praça Roosevelt. No primeiro evento que foi criado, o Facebook bloqueou porque não podia ter evento político no Facebook. Foi uma das primeiras brigas, um primeiro bloqueio que a gente teve de uma ferramenta, de uma mídia que a gente usava que era o Facebook, que já bloqueou ele ou com de uma pauta política que para gente era muito cara. Então, a gente falou, “vamos hackear”, a gente falou “todo mundo”. Quando a gente fala todo mundo eram duas mil pessoas que estavam engajadas com a gente porque era para além de São Paulo, era uma campanha de eleição local, mas foi uma eleição que ninguém no país queria o Russomanno como prefeito de São Paulo. Por isso, nacionalizou a pauta. E o Fora do Eixo ajuda muito nisso porque tudo que a gente faz localmente se nacionaliza. A gente falou para todo mundo no Facebook criar o seu próprio evento. Foram centenas de eventos criados já que o primeiro foi bloqueado. A gente falou “cada um cria o seu evento” chamando as pessoas para irem no dia 5, de rosa, na Praça Roosevelt. Foram 200 eventos que o Facebook precisou ficar toda hora ali, bloqueando. Hoje, com a tecnologia que o Facebook tem seria mais fácil de bloquear os 200 eventos, mas naquela época a gente deu trabalho e eles não conseguiram. Foi um “hackeamento” que a gente fez dentro da própria plataforma. Esses são trabalhos que a gente vai fazendo para provar que a gente utiliza, mas que a gente está em combate também com esses conglomerados que a gente utiliza no nosso cotidiano.


1:00:06 Thaís: Você acha que hoje em dia isso piorou?


1:00:13 Clayton: Não piorou. Hoje em dia, a gente tem mais acesso às informações. E tem uma rede de jornalistas engajados desde o FNDC, que é o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, até o Intervozes, que tem um trabalho super dedicado, um trabalho excelente em termos de dar visibilidade a essa pauta. Quando a gente começou com comunicação, essa pauta da democratização - digamos - não era uma pauta tão acessível a todo mundo. Hoje, não é que piorou, eu vejo que é uma pauta que está, cada vez mais, provocando interesse e cada vez mais acessível para as pessoas... Se a gente for analisar, por exemplo, o governo: entrar e fazer um zoom in muito mais intenso, a gente pode ver que, em termos de políticas públicas para comunicação, piorou muito em relação aos últimos anos, né. Mas se for ver a história como todo, é uma história muito recente da criação dessas redes. O Instagram tem quanto tempo? Ele mal existia quando a Mídia NINJA nasceu. A gente ainda está na mesma década de criação dessas redes, então, é difícil comparar o início com o fim já que eles são muito parecidos.


1:01:46 Filipe: Numa visão macro, nacional, tem as casas NINJA... como é dividido numa visão macro, nacional? / Thaís: Você chegou a dizer que vocês não têm o número de colaboradores que existem, mas vocês tem algum número de pessoas que atuam de forma fixa na Mídia NINJA hoje em dia? E, na época que o Filipe colaborou, não existia nenhuma remuneração dos colaboradores. Isso mudou? E existem profissionais fixos que recebem alguma remuneração da Mídia NINJA?


1:02:25 Clayton: Eu acho que em relação a estrutura foi isso mesmo que eu falei . A gente se organiza - em termos físicos, por meio das casas coletivas que é onde a gente mora e atua. Eu vou repetir mais para poder reforçar e até esclarecer melhor mesmo: a gente tem a Mídia NINJA, que atua como núcleo de comunicação; e tem a equipe responsável pela sustentabilidade, que é o banco Fora do Eixo; pela formação, que é a Universidade Fora do Eixo; pela articulação política da rede; tem uma equipe internacional, que cuida da nossa articulação da rede Fora do Eixo com outros países fora do Brasil... Durante uma época, a gente chamava de simulacros, que era basicamente um pouco de uma cópia do que a gente queria se a gente tivesse um outro mundo possível que não fosse o mundo em que a gente existe hoje. Se a gente fosse fundar um “Novo Mundo”, queria um que tivesse universidade nova, muito diferente da universidade que tem hoje; um banco muito diferente do banco tem hoje; um partido muito diferente dos partidos políticos que existem hoje; e uma mídia que é muito diferente das mídias tradicionais que existem que existem hoje. A Ivana Bentes que deu essa ideia de chamar de simulacro justamente porque era como uma cópia, é um simulado do que já existe no mundo, mas que a gente retransforma a partir das necessidades que tem enquanto Rede Fora do Eixo e, hoje, Mídia NINJA também. Basicamente esse é um resumo de como a gente se estrutura. As casas coletivas como encontros locais de atuação e essas frentes que são as principais frentes de atuação da rede. Fora essas frentes de atuação, a gente tem mais 40 redes que estão ligadas basicamente a essas outras redes que a gente articula, que foi uma contagem que a gente fez. A gente tem uma rede de estudantes; a gente tem uma rede de pessoas LGBTs que é a rede que eu faço parte; uma rede de ativistas ambientais; a gente tem uma rede de pessoas ligadas a música, que hoje fazem um som; a gente tem uma rede de pessoas ligadas à tecnologia, que é a nossa zona de propulsão. Enfim, não vou falar as 40 porque são muitas, nem vou lembrar de todas, mas se for contar a gente tem 40 redes que se articulam dentro desse amálgama que o Fora do Eixo criou. Basicamente é essa a nossa estrutura. Em relação aos colaboradores... para poder falar sobre sobre remuneração, é bacana a gente pontuar que, enfim, eu falei do banco Fora do Eixo, que é uma das frentes de atuação, a principal tarefa do pessoal do banco Fora do Eixo é dar sustentabilidade para nossa rede, que tem casas coletivas, que tem pessoas precisam sobreviver dentro dessas casas, que fazem um trabalho de atuação 24 horas por dia. É necessário sobreviver, então, uma das metodologias que a gente adotou para isso... A casa coletiva já é uma metodologia por si só porque a partir do momento em que a gente mora junto, a gente economiza muito entre nós porque, porque, por exemplo, cada um não precisa pagar o seu próprio aluguel, é um aluguel de um grupo só. A gente não precisa ter despesas separadas entre nós, a gente adotou a metodologia de que tudo que está dentro da casa coletiva é coletivo de fato, desde roupas, equipamentos, tudo é coletivo. Então, a partir desse momento em que tudo é coletivo os nossos recursos se multiplicam porque eu já não tenho mais 10 roupas que foram as roupas que eu vim quando eu entrei na casa. Eu tenho as minhas roupas multiplicadas por 17, que é o número de pessoas que têm na casa. Os nossos recursos se multiplicam a partir do momento em que a gente adota a metodologia de casa coletiva. A gente adotou também outra metodologia nossa que é o caixa coletivo também. Todo recurso que entra, seja recurso em dinheiro, seja recurso de equipamento, qualquer tipo de recurso, quando ele entra dentro da casa, ele vai para o caixa coletivo. E a partir do momento que ele vai para o caixa coletivo, ele é gerido coletivamente, ele vai para o coletivo de fato. Por exemplo, eu vou fazer um freelancer e eu ganhei R$ 2000 no freelancer, que é um freelancer que eu fiz pela Mídia NINJA, esses R$ 2000 vão entrar para o caixa coletivo e vão ser usados naquele caixa de forma coletiva. A partir disso, a gente não tem salário, por exemplo, porque não tem motivo para gente ter salário para cada um. Se a gente desse salário de R$ 5.000 para cada pessoa da rede - que tem umas 50 pessoas, a gente nem ia ter grana suficiente para dar o salário para cada um. Então, o caixa coletivo já é uma metodologia de sobrevivência nossa para poder fazer com que aquele dinheiro se multiplique e seja mais sustentável. Por exemplo, eu quero comprar uma calça, eu vou lá e tiro dinheiro do caixa coletivo. Se tiver pouco dinheiro, não vou comprar calça naquele mês, eu deixo para o mês que vem. Essa é um pouco da metodologia para que os nossos recursos sejam cada vez mais rentáveis, né. Com os colaboradores, eles atuam muito por conta desse desejo de fazer rede e de colaboração. Cada colaborador, por exemplo, tem seus núcleos de comunicação, tem seus coletivos e seus coletivos adotam metodologias próprias de sobrevivência. Têm alguns que se pagam, têm outros que não e adotam essa metodologia do caixa coletivo, e outros coletivos que não adotam. E têm os colaboradores que são os colaboradores sozinhos, que não participam de nenhum coletivo e procuram a Mídia NINJA no sentido de querer... Tem muita gente assim, que já trabalha em outros empreendimentos, já tem seus recursos, trabalha em uma empresa. Com os designers acontece muito, por exemplo, eles já têm os seus salários, eles trabalham muito em empresas que são do governo e muitas que são empresas bolsonaristas até, que é uma coisa que muitos deles reclamam, que é “eu estou trabalhando lá, mas contra minha vontade porque eu não gostaria de trabalhar lá, mas eu trabalho porque eu preciso me sustentar eu preciso daquele dinheiro”. Mas o seu tesão mesmo em poder produzir é para além daquela empresa, é para o ativismo, por exemplo. Muitas dessas pessoas vão procurar a Mídia NINJA e outras iniciativas para poder depositar um pouco do seu tempo para aquele ativismo que ela não… consegue atuar por conta de não ter uma uma possibilidade no mercado. Porque o mercado não paga ativistas. É uma coisa que não casa muito: ativismo e mercado. É uma coisa que não existe uma empresa que fala: “gente, vamos pagar 20 ativistas para poder fazer ativismo”. Isso é uma coisa que a direita faz né, mas para gente nem ativismo é. Mas isso não quer dizer que não existam possibilidades ou oportunidades de a gente remunerar também. Inclusive, ultimamente a gente tem feito isso... Por exemplo, a gente vai fazer um projeto com o Greenpeace, a gente conversa, faz um projeto juntos, como o das Brigadas NINJA, que fez uma circulação pela Amazônia - isso foi no ano passado, para poder contar a narrativa das queimadas e os incêndios criminosos que estavam acontecendo na Amazônia. Entrou recurso por meio do Greenpeace para a gente poder tocar esse projeto e, ao entrar recurso, a gente tem a possibilidade de pagar pessoas para fazer aquele projeto junto com a gente... Se eu não me engano, nesse projeto nem teve pagamento de salário especificamente, mas pode ser que tenha em outros projetos nossos. A gente vai precisar pagar ajuda de custo para cinco pessoas executarem projeto junto com a Mídia NINJA. Então, vai vir o recurso de algum patrocínio que vai ser voltado para isso. Aí, a gente faz chamadas para selecionar pessoas e esses colaboradores, especificamente porque eles vão participar de um projeto específico, vão receber por conta de ser um projeto específico que tem um patrocínio...


1:13:11 Filipe: Quanto ao financiamento da Mídia NINJA, tem uma vaquinha na qual as pessoas podem colaborar. Você pode falar um pouco sobre as formas de financiamento e se há algum lugar que vocês fornecem essas informações ao público como forma de Transparência?


1:13:34 Clayton: A primeira grande metodologia nossa de financiamento é a que eu falei do caixa coletivo. É bacana reforçar porque muita gente acredita que é necessário ter muito dinheiro, que a Mídia NINJA movimenta uma quantia muito grande para poder existir. É claro que precisa porque, enfim, são casas coletivas que precisam se sustentar, mas, às vezes, é até menos do que as pessoas pensam. Muito por conta desse projeto de sustentabilidade que a gente tem por meio das casas coletivas e do caixa coletivo. A gente faz com que os nossos recursos se multipliquem para dentro. Essa é a primeira metodologia. A outra nossa é esse financiamento colaborativo coletivo que você mencionou. Inclusive, é o maior que a gente tem. É a doação mesmo de pessoas físicas para Mídia NINJA. Todo mundo que acessa o site e o Facebook vê uma campanha que a gente fez com o site Catarse de doações mensais para Mídia NINJA. A gente estimulou muito isso desde que a gente lançou, a gente estimulou que cada vez mais pessoas pudessem ser uma espécie de assinante da Mídia NINJA. E a gente tem vários doadores de R$ 5, de R$ 20, tem gente que doa R$ 100 mensais para Mídia NINJA. É basicamente o maior recurso que entra para gente em termos de financiamento. E um terceiro é esse que eu falei também que são de projetos específicos. Para projetos específicos, a gente busca patrocínios. Tem uma equipe que eu falei do banco Fora do Eixo, que é uma equipe que fica caçando edital, que fica caçando oportunidades de financiamento. Muitas instituições internacionais estão muito mais propensas à abertura de financiamento às mídias brasileiras, às mídias locais. Tem vários projetos que a gente desenvolveu em conjunto com essas outras iniciativas para fazer com que a gente tenha um financiamento cada vez mais robusto em termos de sustentabilidade. Então, basicamente, são esses três: o caixa coletivo, as doações e o patrocínio de projetos.


1:16:17 Thaís: Essas instituições contribuem durante um período só para esses projetos específicos ou tem alguma instituição que ajude a Mídia NINJA a longo prazo?


1:16:31 Clayton: São de projetos com início, meio e fim, mesmo. É até impossível você ter uma instituição que consiga adotar uma rede para financiar a longo prazo. Se tem uma que financia a gente a longo prazo é o Fora do Eixo, mas não não é um financiamento de recursos em dinheiro. São recursos de uma forma mais ampla. Mas é isso, são para projetos específicos. A gente fez um projeto junto com a CLUA (Climate and Land Use Alliance) que era da Casa NINJA Amazônia, um projeto de dois anos. Talvez seja o maior em termos de… em termos de tempo de projeto que a gente já tenha feito com patrocínio. Geralmente os editais públicos são patrocínios de três meses, seis meses ou um ano.


1:17:32 Thaís: O foco das reportagens de vocês normalmente tem uma participação maior da cobertura em vídeo. Você acha que esse continua sendo um carro chefe, assim, da Mídia NINJA?


1:17:51 Clayton: Depende muito do momento mesmo. Em 2013, a transmissão ao vivo era carro-chefe, era o principal motor de mobilização da Mídia NINJA com as pessoas que estavam se comunicando com a Mídia NINJA. Mas nem sempre foi assim durante a própria história da rede. Teve momentos que a fotografia era muito mais notória do que o audiovisual, por exemplo. Hoje, eu não consigo mencionar uma área que esteja em predominância. Isso vai muito da pauta, da narrativa que a gente está querendo dar. A pauta de denúncia, o audiovisual ainda é um grande motor. Uma denúncia que você faz em vídeo, gravando o que está acontecendo - como era em 2013, ainda é até hoje o grande mobilizador de pessoas. Até hoje, quando a gente coloca vídeos de denúncias, isso mobiliza bastante gente. Mas é claro, pauta de violência contra mulheres, às vezes, um design pode ser mais interessante para contar aquela história. Ou fotografia. Isso depende muito, não tem uma regra, não tem uma receita.


1:19:25 Filipe: E como a Mídia NINJA busca reforçar sua credibilidade, principalmente nesse cenário de desinformação que a gente vive nas redes hoje? Além disso, podemos observar que a polarização política pode contribuir para essa desinformação. Então, como vocês buscam firmar essa credibilidade?


1:19:47 Clayton: Principalmente a partir da fidelidade que a gente tem com o público, né. Quanto mais a gente faz exercício de apurar as notícias e informações que chegam para gente, e quanto menos erros a gente comete nesse sentido, mais fiel o público da Mídia NINJA fica com as informações que a gente publica. A fidelização que a gente começa a criar com esse público é o que mais faz com que a gente se vacine - digamos, desse grande problema, que é um problema mundial, que é da filtragem, da apuração das informações. Existe uma confiança muito grande do leitor da Mídia NINJA com as informações que a gente publica. Isso vai muito por conta desse processo que a gente criou com as pessoas de contato com elas, de não noticiar informação falsa. Por exemplo, uma outra mídia que faz isso continuamente, ela perde credibilidade. Então, a credibilidade se conquista a partir do contato que você tem continuamente com seu público.


1:21:03 Thaís: Sobre a participação de colunistas que vocês têm que são renomados... por exemplo, Caetano Veloso ele é colunista também participa de algumas entrevistas. você acha que do ponto de vista estratégico a participação dessas pessoas contribui? E aí, pensando também na credibilidade da Mídia NINJA?


1:21:23 Clayton: Com certeza! Esse é um ponto que você falou bem. Esse é um ponto que dá mais credibilidade para Mídia NINJA, de fato. As pessoas que a gente aproxima como fonte de informação, essa pode ser uma resposta boa também para isso que vocês perguntam… Se a gente aproxima pessoas que são confiáveis, isso dá mais credibilidade para Mídia NINJA. Os colunistas foram um projeto que a gente fez tanto para isso, mas não foi para isso somente. A gente chamou muitos colunistas para poder dar mais profundidade aos temas que estavam acontecendo no mundo e que a gente precisava de textos muito mais embasados para a gente poder fazer com que aquela discussão tenha uma profundidade muito maior. Então, a gente começa a chamar as pessoas que têm capital político, um repertório de formação que vai desde uma puta ativista… Se a a gente vai querer falar sobre puta ativismo, é legal chamar pessoas que trabalham na prostituição. Então, a gente vai desde Munique Prado - que é colunista da Mídia NINJA, até quando vamos falar sobre o preconceito contra os evangélicos, então a gente chama ali, desde o pastor Ariovaldo... Enfim, pessoas que são colunistas da Mídia NINJA para poder entrar nesses assuntos, contar e explorar mais sobre esses assuntos com profundidade de causa, de lugar de fala. Elas também têm um pouco dessa missão dentro da Mídia NINJA, de aprofundar temas que estão rodando cotidiano.


1:23:08 Filipe: Vocês usam muitas pautas de perfil comportamental. É uma estratégia para se manter presente nas redes?


1:23:19 Clayton: Depende do que é o comportamental. Por exemplo, gordofobia é uma pauta que a gente precisa frisar cada vez mais na Mídia NINJA. A gente tem uma gama de leitores gordofóbicos enorme. Toda vez que a gente posta uma foto, sempre vem gente para dar um pitaco gordofóbico. Então, a gente fala: “é uma pauta comportamental que precisa ser cada vez mais constante ali na timeline da Mídia NINJA”. A gente sempre se coloca quando é possível. Inclusive, hoje, tem um evento que a gente está realizando chamado “Pré ELLAa Gordes” para a gente poder dar uma profundidade maior para essa pauta também. E vai desde os pequenos virais como um bicho preguiça atravessando a rua. Talvez não seja tão comportamental, mas são pautas que, para a gente, se ligam esteticamente ou intuitivamente a algum desejo, ou a alguma necessidade... de ter uma pauta política que talvez não esteja tão presente ali nos memes que a gente vê tão cotidianamente nas nossas timelines. Mas, enfim, realmente está muito presente mesmo.


1:24:51 Thaís: Voltando ao início da Mídia NINJA, parecia que ela não era vista como jornalismo. Você acredita que houve uma virada em relação a isso? Vocês já dizem que se consideram um veículo jornalístico, mas você acha que as pessoas percebem isso? E quando que ocorreu essa virada?


1:25:21 Clayton: Quando a Mídia NINJA nasceu, em 2013, já tinha muito esse debate sobre o que é jornalismo, então a gente não entrou querendo provocar esse debate, nem entrou querendo falar “isso daqui é jornalismo, isso daqui nem é”. A gente entrou fazendo nosso exercício e as próprias pessoas que liam a Mídia NINJA e que faziam análises da Mídia NINJA é que falavam se era ou não era jornalismo. Para a gente, sempre foi, desde o começo quando a gente era estudante e fazia nossos núcleos de comunicação da rede Fora do Eixo produzindo narrativa dos festivais que a gente produzia. Isso começou a vir muito em voga por conta do debate que se fazia sobre o papel do jornalismo em 2013, no ano em que a Mídia NINJA nasceu. Por tabela, a gente entrou nesse debate sobre a credibilidade do jornalismo. Mas, na verdade, não era uma credibilidade do jornalismo, que foi um pouco do argumento que a gente colocava, era uma credibilidade de um modo de fazer jornalismo, que estava realmente em crise. E essa crise não pertencia às mídias independentes, pertencia especificamente às mídias tradicionais. Porque em 2013, mesmo nas manifestações de rua, as narrativas que se colocavam naquelas manifestações eram muito diferentes das que o cidadão comum produzia quando ele ia para as ruas. Por exemplo, a minha mãe acreditava muito mais naquilo que eu falava do que o Jornal Nacional colocava, porque eu estava na rua. Eu era muito mais legítimo para minha mãe do que o próprio jornalista. É até ruim de falar “eu” porque eu também sou jornalista, mas qualquer pessoa, qualquer cidadão que estava lá na rua e que filmou aquela violência policial que aconteceu e depois, à noite, ver uma narrativa carnavalesca sobre o que aconteceu nas ruas... A mãe vai acreditar muito mais no filho que contou o que aconteceu porque ele, de fato, filmou o que estava acontecendo, do que o Jornal Nacional contou na noite daquele dia. Então, quem estava perdendo credibilidade eram essas mídias tradicionais. As mídias independentes, pelo contrário, estavam ganhando cada vez mais credibilidade e, por isso que a Mídia NINJA ganhou a notoriedade que tem hoje. Cada vez mais pessoas começaram a acreditar na Mídia NINJA em detrimento das mídias tradicionais. Essa era uma discussão que não pertencia a gente especificamente. Essa era uma crise dos grandes conglomerados de mídia.


1:28:21 Filipe: É uma constante disputa de narrativa?


1:28:25 Clayton: É uma disputa que, enfim, no decorrer dos anos vai ganhando novas nuances, mas no começo o grande debate que se fazia era esse. Agora, é claro que a política muda muito. Hoje em dia, cada vez mais esses conglomerados estão alinhados politicamente com as mídias independentes. Mas isso, por exemplo, no golpe de 2016 não aconteceu. No golpe de 2016 eram as mídias independentes por si só, contra uma série de outros conglomerados que estavam querendo produzir uma narrativa… Só hoje as pessoas estão falando em golpe, mas, naquela época, a gente já falava, em termos de estética, a gente já produzia imagens falando o que estava acontecendo naquele momento.


1:29:18 Thaís: De uma forma bem pessoal, o que é jornalismo para você?


1:29:32 Clayton: Para mim, jornalismo é poder organizar as informações. É você ter a capacidade de poder organizar as informações que estão em abundância no mundo e poder dar uma narrativa fiel, uma narrativa verdadeira - por mais que essa palavra possa ter uma série de problemáticas. É poder organizar essas informações em narrativa para o maior número de pessoas possíveis. Esse é um pouco do papel que todo jornalista deveria fazer. As informações, elas já estão em abundância. Qualquer pessoa que não é jornalista pode acessar essas informações nas redes, no mundo, no cotidiano, né. O nosso papel enquanto jornalistas é poder fazer com que as informações tenham uma qualidade, cada vez maior, de acessibilidade e de narrativa mesmo. Porque informação, a gente sabe que existe aos montes, mas tem informação falsa, tem informação que vai muito além da pauta democrática que a gente quer defender. Existe muita informação racista, muita informação que estimula a violência, muita informação que estimula o ódio. Em vez de falar que o jornalismo acabou porque a gente não encara o papel do jornalista, hoje, como aquela pessoa que vai pegar essas informações e produzir uma narrativa que seja uma narrativa por uma disputa de sociedade, uma narrativa que vá produzir, cada vez mais, uma fraternidade maior entre as pessoas, uma narrativa que vá fazer com que as pessoas se engajem politicamente por pautas comuns... Ou uma narrativa que faça com que as pessoas cada vez mais procurem alimentação saudável. Enfim, acho que esse é o papel de jornalista. O papel que a gente tem, em detrimento das outras pessoas que captam as informações que estão presentes no mundo e no nosso cotidiano. Bem, é isso, foi até filosófico demais.